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Edison versus Tesla: o mistério do dispositivo para conversar com os mortos

Wilson Roberto Vieira Ferreira

Quase meio século depois de ter inventado a lâmpada incandescente e o fonógrafo, o inventor e empresário Thomas Edison enfrentou o físico sérvio Nikola Tesla na última batalha das invenções: criar um dispositivo para conversar com os mortos – o telefone espiritual, uma espécie de “disque-fantasma”. Embora fosse agnóstico e crítico feroz das sessões espíritas, muito populares na virada do século, Edison acreditava que a conexão com o Outro Mundo somente poderia ser realizada através da Ciência. Em si mesma, a eletricidade era, e ainda é, misteriosa: embora faça parte do nosso cotidiano, ainda não sabemos a real natureza dessa força – ela parece possuir todas as propriedades das velhas mitologias animistas do passado. Enquanto Tesla buscava essa comunicação com o Além através do rádio, Edison optou pelo telefone. Assim como o fonógrafo foi recebido como a realização do antigo sonho da imortalidade, Edison via no sinal telefônico a possibilidade de se comunicar com “partículas imortais”. Esse é mais um capítulo da História de como o avanço tecnocientífico é alavancado pelo misticismo e por mitologias milenares.  

Ainda está para ser escrita a História das motivações místicas e esotéricas por trás das descobertas tecnocientíficas. Principalmente aquelas envolvendo a eletricidade.

De todas as forças que compõem o cosmos, a eletricidade é aquela que mais define a modernidade. Uma força que até hoje é envolta em mistério. Todas as dinâmicas não biológicas da civilização como velocidade, peso, gravidade, movimento já foram dissecadas pela física clássica e, por isso, não despertam mais tanto a nossa imaginação.

Mas com a eletricidade sempre foi muito diferente: um mundo invisível de campos eletromagnéticos e frequências que ainda desperta mistérios. Mesmo que façam parte do nosso cotidiano como na música, rádio e TV.

“Nós realmente sabemos o que é eletricidade?”, perguntou certa vez Anagarika Govinda, pesquisador alemão que se converteu ao budismo tibetano. Para ele, conhecemos as leis que tornam a eletricidade útil na nossa civilização, porém não sabemos a sua origem e a real natureza dessa força – leia DAVIS, Erik, TechGnosis, Myth, Magic and Mysticism in the Age os Information, 2004.

O fato é que a eletricidade possui a propriedade de todos os mitos animistas do passado (a crença em entidades não humanas que possuiriam essência espiritual), expressando tudo aquilo que os poetas e filósofos já pressentiam: a natureza não é um mero mecanismo sem vida, mas algo que vibra, tem vida, assim como nossos pensamentos e emoções.

 

Não é à toa que na imaginação científico-literária, a eletricidade sempre esteve associada à própria força da vida, deuses e imortalidade. Por isso o espiritualismo se tornou a primeira religião da Era da Eletricidade e da Informação – telégrafo, rádio e TV.

Os fenômenos mediúnicos, mesas girantes, escritas automáticas etc., estudados por Alan Kardec e pela Teosofia de Madame Blavatsky e Leadbater no século XIX, surgem simultaneamente à descoberta do eletromagnetismo e na transformação da eletricidade em informação com o telégrafo. Os próprios fenômenos paranormais começam a ser interpretados como fenômenos eletromagnéticos de comunicação espiritual.

Do monstro Frankenstein que veio à vida pela descarga elétrica, o fenômeno da hipnose através do “magnetismo animal”, comunicação entre vivos e os espíritos dos mortos por meio do corpo de um médium transformado num condutor de energia elétrica, até chegarmos aos modernos meios de comunicação, tudo parece ter o mesmo denominador comum místico – busca da vida e imortalidade.

Foto de Thomas Edison usada na edição da “Forbes” em que o inventor anunciou sua pesquisa sobre o telefone espiritual

“Disque-fantasma”

Mas será que até mesmo o inventor e empresário norte-americano bem-sucedido Thomas Edison (1847-1931), conhecido por centenas de patentes de invenções como o fonógrafo e a câmera cinematográfica, além de criar a versão eficiente da lâmpada incandescente, partilhava dessa visão esotérica ou animista da eletricidade?

Não só partilhava como também construiu um dispositivo para conversar com os mortos – o telefone espiritual, uma espécie de “disque-fantasma”.

E mais: muitos historiadores ainda acreditam que a sua pesquisa secreta em torno desse dispositivo foi mais um episódio da famosa disputa entre Edison e o físico sérvio Nikola Tesla. Para Edison, os planos de um telefone espiritual que poderia ser usado para contatar os mortos não era meramente pela busca da fama, fortuna ou avanço científico: era a chance de superar um rival pela última vez.

O atrito entre Edison e Tesla foi uma das maiores rivalidades da história da ciência, desde que o físico sérvio era um jovem e promissor engenheiro que trabalhava para a Continental Edison Company em Paris. O conflito veio à tona com a chamada “Guerra das Correntes”, na qual Tesla venceu seu empregador ao provar que a corrente alternada (AC) era mais eficiente e capaz de transmitir eletricidade a longas distâncias. Superando a Corrente Contínua (DC) de Edison – clique aqui.

Por volta da virada do século XX, quando a eletricidade estava sendo usada pela primeira vez para iluminar salas ao apertar um botão e fazer as imagens se moverem na tela do cinema, a ideia de usar a tecnologia para entrar em contato com os espíritos não parecia tão absurda.

Tesla considerou essa possibilidade ao experimentar um rádio de cristal alimentado por ondas eletromagnéticas em 1901. Os sinais que ele captou uma noite eram tão enervantes que sua mente científica não pôde deixar de pensar em fantasmas. Ele escreveu em seu diário : “Minhas primeiras observações me aterrorizaram positivamente, pois havia nelas algo misterioso, para não dizer sobrenatural, e eu estava sozinha em meu laboratório à noite”.

Em 1918 , ele escreveu sobre sons semelhantes que ouviu depois de mexer em outro rádio, mas teve o cuidado de não atribuí-los automaticamente a fontes de outro mundo. “Os sons que estou ouvindo todas as noites no início parecem ser vozes humanas conversando em um idioma que não consigo entender”, escreveu ele. “Acho difícil imaginar que estou realmente ouvindo vozes de pessoas reais”.

Espíritos, massa e energia

Quando soube disso, Edison resolveu entrar em ação. Embora fosse um notável agnóstico e crítico feroz dos médiuns que faziam sessões espíritas, muito populares na época, ele ficou intrigado com a possibilidade da existência de entidades existente além desse mundo.

Em 1920, ele disse à The American Magazine : “Estou trabalhando há algum tempo construindo um aparato para ver se é possível que personalidades que deixaram a Terra se comuniquem conosco”. Outros mais tarde se referiram a esse dispositivo como seu “telefone espiritual”.

Como todos os seus experimentos, este estava enraizado na ciência. Edison baseou-se no trabalho de Albert Einstein, particularmente suas teorias de entrelaçamento quântico e relatividade especial. O pensamento de Edison foi o seguinte: se é possível converter massa em energia, talvez os espíritos das pessoas vivas se tornem unidades coerentes de energia quando seus corpos param de funcionar. E se partículas emaranhadas podem se afetar através de grandes distâncias, como afirma a teoria quântica do emaranhamento , então talvez haja uma maneira de esses feixes de energia interagirem com o nosso mundo físico.

De acordo com Joel Martin e William Birnes, no livro Edison vs. Tesla: a batalha pela última invenção, Edison testou um protótipo de sua invenção por telefone espiritual em 1920. Convidou médiuns e cientistas a comparecer e observar um experimento misterioso.

Eles viram uma máquina tipo projetor, instalada em uma bancada, que emitia um fino feixe de luz sobre uma célula fotoelétrica. A célula iluminada foi projetada para detectar a presença de forças e objetos se movendo através do feixe – mesmo aqueles invisíveis a olho nu. Se um ser de outro mundo comparecesse à reunião e passasse pela luz, um medidor conectado à célula fotoelétrica os informaria, explicou Edison.

Se seus convidados apareceram naquele dia esperando evidências científicas de fantasmas, ficaram decepcionados. Horas se passaram e a agulha no medidor permaneceu imóvel – até os médiuns presentes tinham que admitir que não havia nada sobrenatural acontecendo.

Mas o inventor não desanimou. Embora alguns céticos tenham chamado tudo de “brincadeira sobrenatural” e “farsa”, um trecho recuperado recuperada do diário pessoal do inventor sugere que suas atividades eram genuínas. Ele continuou trabalhando no chamado “telefone espiritual” ao longo da década de 1920.

Em uma entrevista para a respeitável revista Forbes em 1921, Edison, então com 73 anos, declarou:

“Estou trabalhando há algum tempo na construção de um aparato para ver se é possível que personalidades que deixaram essa terra se comuniquem conosco. Se isso for realizado, não será realizado por nenhum meio oculto, misterioso ou estranho, como os empregados pelos chamados médiuns, mas por métodos científicos”.

 

Tempestade midiática

O “telefone espiritual” de Edison causou uma tempestade na mídia. Por exemplo, um desenho animado francês da época mostrava um marido deprimido sendo incomodado por sua sogra além do túmulo através do telefone espiritual de Edison.

Durante anos, muitos historiadores acreditaram que a invenção fosse uma piada ou uma farsa; não foram encontrados projetos ou protótipos de um telefone espiritual.

Embora ele não tenha realmente contatado os mortos, há evidências de que ele experimentou a ideia. Em 2015, o jornalista francês Philippe Baudouin encontrou uma versão rara do diário de Edison em um brechó na França. Esta versão inclui um capítulo que não foi impresso na amplamente conhecida edição em inglês de 1948, denominada Observações Diárias e Secundárias de Thomas Alva Edison. Este capítulo que faltava foi dedicado à sua teoria do mundo espiritual, e como seria possível contatá-lo. Baudouin republicou a edição francesa como Le Royaume de l’au-delà .

Para muitos, a promessa inacreditável do telefone espiritual lembrou, por exemplo, como as pessoas ficaram assustadas com o fonógrafo do jovem Edison, em 1877. Muitos sentiram que a invenção “poderia transformar o sonho antigo da imortalidade em realidade, na tentativa de enganar a morte”, observa Baudouin no documentário Thomas Edison and The Realms Beyond (2015) .

Falar com os entes queridos além do túmulo pode ter atraído o público, mas para Edison isso era uma questão de ciência estrita. Edison acreditava que a vida era indestrutível e que “a quantidade nunca poderia ser aumentada ou diminuída”. Ele teorizou que, como nossos corpos, nossas personalidades têm uma forma física, feita de pequenas “entidades” semelhantes à nossa visão atual dos átomos. Ele achava que essas entidades poderiam existir após a morte dos humanos – um resíduo baseado na personalidade de memórias e pensamentos perdidos, contendo parte de quem uma pessoa era durante a vida.

Se essas partículas existissem, ele argumentou, elas poderiam se reunir no éter ao nosso redor.Possivelmente, eles poderiam ser amplificados por seu dispositivo, como uma voz humana poderia ser amplificada e gravada por um fonógrafo.

De acordo com Baudouin, Thomas Edison escreveu planos e teorias para esses dispositivos, embora ele realmente tenha construído e testado um, e até que ponto ainda seja desconhecido. Ele nunca nomeou a máquina e se referiu a ela como uma “válvula”, altamente sensível à vibração. Esboços posteriores do telefone espiritual de Edison, publicados por revistas, mostravam partes de alguma coisa parecida com um fonógrafo, incluindo uma buzina canelada contendo um eletrodo, considerado por alguns como mergulhado no permanganato de potássio condutor. Essa buzina estava presa a uma caixa de madeira contendo um microfone, que captava as vibrações dessas entidades por causa de sua extrema sensibilidade.

Misticismo e Ciência ontem e hoje

Essa pequena história do “telefone espiritual” de Thomas Edison é mais um capítulo de como as motivações místicas, esotéricas e herméticas animam o avanço tecnocientífico. Principalmente quando a eletricidade e o eletromagnetismo abriram as portas para a Relatividade e os mundos quânticos da matéria e energia.

Mas parece que a busca pela imortalidade é a chave, desde a invenção do fonógrafo de Edison.

Por exemplo, conceitos como “Pós-Humanismo” e “Trans-Humanismo são correntes entre os engenheiros computacionais do Vale do Silício, Califórnia.

A busca da versão 2.0 da humanidade, o seu estágio superior por meio da transmutação dos nossos corpos em máquina, imagens e informação. A busca pela singularidade – informática, nanotecnologia e robótica evoluem em um ritmo tão acelerado que desencadeará o surgimento de uma super-inteligência (a Internet senciente, por exemplo) e a absorção do próprio homem. Que faria um upload final para essa super-consciência, alcançada a imortalidade no céu ou nuvem de bytes.

Ou ainda poderíamos especular como o desenvolvimento dos dispositivos de Realidade Virtual e Realidade Aumentada se inspiram na tela mental dos nossos sonhos e do pós-morte.

Assim como no velho axioma da filosofia hermética (a Lei da Correspondência – “O que está acima, é como está embaixo. O que está dentro é como está fora”), o mundo dos sonhos reserva as mesmas mazelas do mundo da vigília. Se aqui as telas da TV, do Cinema ou dos dispositivos de RV que encobrem a realidade através da ilusão, no mundo dos sonhos também cada um cria sua própria tela mental na qual são projetados medos, culpa, desejos, fantasias que podem materializar-se no mundo etérico em formas-pensamento bem convincentes e, muitas vezes, assustadoras – sobre isso clique aqui.

A questão é que, assim como Edison, essas motivações místicas não significam que sejam altruístas – a busca da imortalidade em prol de toda humanidade.

No mundo real, essa convergência ciência e misticismo é mais perversa e menos literal.

Nos algoritmos que regem as escolhas nos sites de relacionamentos e compra e venda automática nos mercados de ações, temos a materialização tecnológica da figura da “mão invisível” da ideologia neoliberal – uma misteriosa ação invisível que regularia os apetites individuais, livrando o homem de qualquer julgamento ético ou moral.

Mas sabemos que essa “mão invisível” ou “IA” esconde novas formas de engenharia e controle social. Afinal, quem é o dono do hardware? Quem financia a construção das máquinas que guiarão nossos carros e serão o suporte da nossa imortalidade?

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