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Evangélicos crescem no Brasil, mas a fé cristã diminui

Como explicar as tantas expressões anticristãs e até mesmo de ódio por parte de evangélicos?

Tenho participado de palestras e mesas redondas organizadas pelos mais distintos grupos sobre o lugar dos evangélicos no espaço público do Brasil hoje. Há algo em comum entre os anfitriões: a perplexidade em torno do protagonismo assumido pelo segmento evangélico no espaço público, muito especialmente a partir dos anos 2010. Já escrevi sobre isto nesta coluna, aliás.Nesses eventos, as pessoas me colocam uma questão comum: como explicar as tantas expressões anticristãs e até mesmo de ódio por parte de evangélicos? Os exemplos não são poucos: violência verbal, farto uso da ironia ferina, desqualificação de opiniões divergentes, deboche com temas que dizem respeito à vida e à morte de seres humanos, descaso com as questões em torno da vida de todos os seres, desrespeito às distintas expressões de fé e a quem não tem fé.

É preciso reconhecer que evangélicos também sofrem os tipos de violência listados acima. Há muito preconceito, desqualificação, tratamento pejorativo, generalização das críticas relacionadas a um grupo evangélico específico. Não é à toa os evangélicos aparecem como o segundo grupo a sofrer com ela no país, segundo o último relatório oficial sobre intolerância religiosa no Brasil.

Entretanto, é necessário assumir que muitos destes ataques são resultantes da visibilidade evangélica nas mídias e na política.

O que tem se tornado visível são manifestações de lideranças intolerantes, arrogantes e desrespeitosas das diferenças que compõem o tecido da sociedade e todo o segmento evangélico acaba tendo sua imagem atrelada ao que se torna mais evidente. O áudio que circulou pelas mídias sociais mostrando o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) convocando milícias digitais a atacarem o senador Randolfe Rodrigues (REDE-PE) é o mais recente exemplo.

E o ódio que se expressa entre os próprios evangélicos? Nesse caso, importa compreender que este grupo religioso teve um estrondoso crescimento numérico, geográfico e patrimonial desde os anos 90. Evangélicos passaram a ocupar espaços urbanos, mídias tradicionais e mídias digitais, o mercado, o show business.

Os novos fiéis aderiram à fé que lhes foi apresentada. A hegemonia dos grupos pentecostais pautou a pregação baseada na espiritualização e na individualização de todas as dimensões da vida, alcançando fartas audiências.

Ela tem bases na Teologia da Prosperidade (do individualismo, do sucesso e da felicidade pessoal nas finanças, na saúde e na família, a despeito das mazelas da coletividade), na Teologia da Guerra Espiritual (do combate a inimigos que são a encarnação das potestades do mal que impedem a ação de Deus na vida dos indivíduos), na Teologia do Domínio (a cristianização do mundo – governos, inclusive – e o domínio de todas as áreas da vida, pelos fiéis evangélicos), na Teologia da Confissão Positiva (em que os fiéis afirmam que tudo podem realizar e que são “imbatíveis”, vitoriosos, a partir da fé que declaram ter em Deus).

 

Nesse sentido, a educação recebida de forma hegemônica pelos novos fiéis evangélicos dos anos 2000 não enfatiza conteúdos fundamentais da fé cristã como a dimensão comunitária, o despojamento, o respeito às diferenças, a Teologia da Graça (do amor incondicional de Deus, que age sobre o mundo e os seres que nele vivem independentemente do que realizam), a Teologia do Reino de Deus (o governo de Deus sobre o mundo com base em valores como amor, misericórdia, perdão, promoção da paz e da justiça, prioridade às minorias, empatia).

São muitos anos aprendendo a nomear e combater como inimigos os que têm posições e práticas diferentes das assumidas pelos grupos evangélicos que recebem estas pregações. São muitos anos de Teologias do Domínio e Confissão Positiva e seus tons de arrogância e autossuficiência que, embora atuem no aumento da auto-estima de fiéis, especialmente, os que fazem parte de minorias sociais, acabam por reforçar uma cultura da violência.

Como consequência, o modelo de Jesus, o de Nazaré (daquela periferia sobre a qual se pensava que “não poderia sair algo bom”, João 1.46) é diminuído e prevalecem referências da Teologia Monárquica do Antigo Testamento bíblico como trono, reinado, véu que separa o altar, simbologia do Leão.

O chamado ao amor e à promoção da paz, símbolos como a cruz e a pomba, são enfraquecidos e cresce a convocação à guerra contra os inimigos de Deus. Estes são tomados por tabela como inimigos das igrejas, de seus líderes e de seus aliados (materializados hoje nos movimentos feminista e LGBTI+, nas esquerdas, outros grupos religiosos). O alinhamento dos fiéis se concretiza no combate verbal pelas mídias digitais e até na destruição física de terreiros de Candomblé e outros espaços religiosos (como já tratado em artigo neste espaço).

Portanto, há muito crescimento evangélico, com a pregação atraente que promove a adaptação dos fiéis à cultura predominante na sociedade (individualismo, competição, comercialização da vida, guerra ao diferente). Em contraposição, vemos a diminuição da fé cristã por meio do desprezo aos valores pregados por Jesus. No entanto, vale registar que é possível, sim, encontrá-los em pequenas sementes espalhadas em comunidades evangélicas invisíveis que se colocam em meio à dor, ao sofrimento, à alegria e à solidariedade Brasil afora. Importa visibilizá-las!

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