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Quem tem medo de macumba?

Era um ensinamento muito simples que minha avó, Dona Aparecida, sempre fez questão de transmitir: “Não mexa, não pegue nada nem pise. Antes de passar, peça licença e não olhe para trás.” Quando dizíamos que tínhamos visto uma “macumba”, ela imediatamente nos corrigia: “Uma entrega, meu filho”.

Ressaltava ainda que macumba era um instrumento musical muito antigo, parecido com um reco-reco, portanto, macumbeiro era aquele que sabia tocá-lo.

Mais tarde descobri que essa designação genérica das religiões afro-brasileiras tinha uma conotação extremamente pejorativa. Era usada como sinônimo de feitiço, malefício ou bruxaria, por isso que vovó o evitava.

 

Entrega, para ela, tinha o sentido da consagração, da oferta. Eram as obrigações que devia cumprir com seus santos, com seus orixás e guias.

Embora soubesse, com toda vivência, que as antigas religiões africanas que pululavam, sobretudo no Rio de Janeiro no fim do século XIX, com uma organização muito precária, eram, sim, chamadas de macumba pelos próprios adeptos. Obviamente, sem a carga do preconceito.

De vez em quando, vovó fazia suas “entregas”, orientada por Seu Joaquim, nosso padrinho de umbanda, que recebia um poderoso Exu chamado “Seu Delegado”, ou por sua riquíssima patroa, Dona Dirce, filha de santo de Mãe Menininha e esposa de um dos maiores executivos do País.

Minha avó também não utilizava os termos “despacho” ou “mandinga”. “Eu só faço minhas oferendas, o que é que tem?”, retrucava muito séria quando alguém a questionava.

Quem gostava mesmo de uma macumba era minha tia Natália, que não rompia um ano novo sem levar para a encruzilhada as oferendas de sua pomba-gira: Dona Rosa Negra, que chamávamos de “Rosa”, com certa intimidade. Dava meia noite, os fogos pipocavam, e quando a sidra estourava, Rosa chegava pra nos saudar, aconselhar, dar broncas e desejar coisas boas.

Ana morava conosco. Era uma moça branca, de olhos verdes, comadre da minha avó e também trabalhava pra Dona Dirce, assim como minha tia Tota. Sempre que havia macumba na casa da patroa, elas chegavam, tomavam banho de folha e colocavam as roupas apropriadas. Cozinhavam as comidas de santo, ajudavam Dona Dirce e depois saíam com motorista pra despachar.

Todas essas práticas nada mais eram do que os rituais do candomblé ou da umbanda. Dona Dirce fazia seus ebós, cumprindo as obrigações com os orixás. Como era rica, consideravam-na exótica, excêntrica, a patroa que se deixava influenciar pelas empregadas macumbeiras.

Uma vizinha chegou a alertá-la, disse que estava sendo vítima de charlatanismo e feitiçaria. “Onde já se viu, Dirce? Essa gente te extorquindo desse jeito? Você está cega?” Dona Dirce esqueceu-se de toda sua elegância e pôs a enxerida em seu devido lugar.

Vovó morava no serviço, mas Ana e minha tia Tota voltavam pra casa e tinham que relatar os “trabalhos” pra Natália, com todos os detalhes: como havia sido cada ritual, da preparação à entrega. Eu, criança ainda, me aboletava por perto e ouvia atentamente as histórias. “Um inhame na linha do trem”; “farofas, cachaça, champanhe, flores, charutos e cigarros nas encruzilhadas”; “frutas e milhos nas matas”; “feijão com ovos na cachoeira”; “quiabos nas pedreiras”. Um dia inteiro só pra isso.

Falavam também das matanças, dos ritos que não podiam assistir, do pessoal que vinha ajudar Dona Dirce: o “povo do candomblé”, como elas diziam. Achavam o tal do “candomblé” muito forte, preferiam a umbanda. Só que vovó era muito grata, pois quando esteve ameaçada de perder a perna por causa da diabetes, a patroa fez um ebó, uma macumba com carne de porco e pipocas para o santo de minha avó: Obaluaiê, que a livrou da amputação.

Ana era quem ia com Natália para a encruzilhada, inclusive fazer as entregas de sua comadre Cida. Não podia ser qualquer uma: rua de terra, pouca luz, pouca gente. Duas mulheres e uma criança (se não me levassem eu fazia um show, gritava e chorava de soluçar). Início dos anos 1980, menos perigo e, por incrível que pareça, muito mais respeito com essas coisas.

Eu perguntava à vovó o que acontecia se alguém pisasse na macumba. “Se for sem querer não tem problema, mas lembra do Euclides-pé-de-bomba? Ficou com o pé daquele jeito porque chutou uma entrega. Sabe o João Galego? O pinguço? Depois que bebeu a cachaça do despacho nunca mais parou em cima das pernas. Perdeu emprego, mulher, a casa e hoje vive do ‘se-me-dão’. Não é brincadeira, meu filho, tem que respeitar.”

Vovó nos ensinou a ter fé, respeito e medo. Um dia, minha prima Alessandra passou, porém, por uma macumba cheia de notas de 100 cruzeiros, aquelas com a cara do Marechal Floriano Peixoto. Era uma menina atrevida, apanhou o dinheiro todo e levou pra casa.

Eu fui logo contando que a Alessandra tinha pegado o dinheiro da macumba, mas minha avó não ralhou com ela, ao contrário: “Chegou na hora certa, minha filha. Acabou o gás, não tem mais feijão e o arroz tá no fim. Dá aqui pra vovó.” Quando lembrei que era o dinheiro da macumba, ela explicou: “Meu filho, não tem problema quando é uma criança que pega, porque criança é inocente.”

De fato, diante da necessidade premente, qualquer criança se torna inocente. A maldade era a fome, a penúria, a carestia que nos assolava. Vovó sabia das coisas, sabia que não seríamos castigados por salvar o mês da família.

Brincar de macumba era minha grande diversão. Tudo que via no terreiro, imitava em casa. Quando minha avó chegava no fim de semana, com dores terríveis nas pernas, pedia pra “meu guia” benzer a ferida dela. E eu “recebia” os guias, benzia e ela dizia que curava.

Vovó morreu em 1984, vencida pelo diabetes. Não ficou numa cama dependendo de ninguém nem amputou a perna, seu maior medo. Passou mal a caminho do trabalho. Morreu numa manhã de primavera. Um dia lindo, cheio de sol e cor.

Natália escolheu um vestido simples, marrom, que ela usava pra ficar em casa. Milena, a filha caçula, disse que não, que a mãe, sempre tão elegante, não seria enterrada com aquela roupa. Pegou um tailleur de linho branco e uma camisa de seda azul, da cor do céu. Ela ficou linda, entre as rosas champanhe, com suas madeixas prateadas, bem penteadas, do jeito que mais gostava. No rosto, um leve sorriso.

Há alguns anos não trabalhava mais pra Dona Dirce. Quando a ex-patroa chegou, com suas roupas e insígnias, fez-se o murmurinho. “Olha a ricaça macumbeira”. Ela trazia uma rosa cor-de-rosa e a colocou entre as mãos da vovó. Beijou-lhe a testa, depois abraçou Tota e Ana e acarinhou suavemente o rosto da Alessandra.

Quando nossos olhares se cruzaram, percebi que eu (por um acaso) e ela éramos os únicos inteiramente de branco naquele velório. Ela se aproximou, tirou um fio de contas do pescoço e me deu: “Você é o neto macumbeiro da Aparecida, o mais querido…”

Alguns dias depois, Dona Aninha, uma preta velha “espírita”, amiga e confidente de minha avó foi conversar com a Natália. Dei um jeito de ficar por perto e ouvir a conversa: “Cida me procurou uma semana antes de morrer. Disse que queria ser enterrada com aquela roupa e exatamente com aquela rosa entre as mãos. Ela está em paz e vai rezar por vocês.”

Um dia, vi uma macumba cheia de doces e bombons no jardim de uma praça. Fiquei tentado, mas meu medo foi maior. Lembrei-me de vovó dizendo “criança é inocente”. Voltei, mas acho que uma criança mais esperta chegou primeiro.

No fundo, vovó me ensinou que não se deve desafiar o desconhecido nem o sagrado, e que o parâmetro para inocência é a necessidade.

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