Holístico

Astro Poets, quando a astrologia vira poesia

Capa do livro 'Astro Poets' na conta de Instagram de seus autores.

Dois poetas nova-iorquinos viram ídolos nas redes sociais ao explicarem os signos através de um peculiar coquetel de poesia lírica e cultura popular

Dois poetas se conhecem uma noite de 2010 em uma casa no bairro do Brooklyn, em Nova York. Ambos já lançaram coletâneas poéticas, seu trabalho aparece nas páginas da The New Yorker e da Paris Review. Mas naquela noite eles falaram dos astros. Ele é de sagitário; ela, de áries. Segundo a astrologia, estavam fadados a “uma conexão imediata”. Desse encontro regado a espumante barato e confidências zodiacais surgiu uma conexão cósmica, embora não imediata. Alex Dimitrov e Dorothea Lasky levaram seis anos para concretizar sua união espiritual. Primeiro abriram uma conta no Twitter com o nome Astro Poets ―marca com a qual se identificam desde então. Nem meia década depois, mais de meio milhão de fiéis (sua legião é maior que a da bem-sucedida astróloga Susan Miller) esperam a cada domingo um promissor conselho astral em tom de poema. O fenômeno viral agora virou livro, Astro Poets: Your Guides to the Zodiac (“astro-poetas: seus guias para o zodíaco”, inédito no Brasil).

Se o pintor Salvador Dalí tinha seu próprio baralho, John Cage compunha tirando o I-Ching e os escritores Philip K. Dick e William Butler Yeats recorriam ao tarô para seu processo criativo, Dimitrov e Lasky conceberam um manual de astrologia que explica os signos zodiacais através de personagens e momentos relevantes da cultura pop. Que saibam os de peixes que nada os define melhor que Rihanna, no festival Coachella de 2012, apertando um baseado nos ombros de seu segurança, com uma camiseta com a palavra peace (paz). A característica de virgem é o profissionalismo de Beyoncé quando, no meio de um show, um ventilador engole parte da sua cabeleira e ela continua cantando sem se alterar.

Alex Dimitrov e Dorothea Lasky.
Alex Dimitrov e Dorothea Lasky.CORTESÍA DE LA EDITORIAL

Os de áries se sentirão representados numa Mariah Carey furiosa porque, na véspera do ano-novo de 2016, no meio da Times Square, o playback falhou. Ou, se a música pop não é o seu negócio, você pode encontrar outra referência em Virginia Woolf, especificamente em seu livro A Casa Assombrada.

Os de gêmeos são Bob Dylan numa entrevista coletiva em San Francisco, em 1965. Um jornalista lhe pergunta se, além de suas canções, tem outra mensagem para as pessoas. “Boa sorte”, respondeu o artista. “Esse sarcasmo com uma mensagem meio sincera, meio cortante ―tão próprio de gêmeos”, diz o livro.

Estes textos pop, narrados de forma coloquial, são acompanhados de poemas, na maioria dos casos com uma estrutura de soneto. “A linguagem está condicionada pelo meio onde escrevemos, no Twitter as pessoas se comunicam de uma determinada maneira”, diz Lasky por e-mail ao EL PAÍS. “A poesia se presta de forma natural à astrologia porque retém o mistério da vida”, opina a autora. “Mas não existe nada semelhante à verdade absoluta ou ao destino. A astrologia sabe disso porque não trata de algo que se possa medir, e sim das possibilidades. A poesia assume que nada é verdade.” Seu colega astrólogo, Alex Dimitrov, acrescenta outro elemento à relação entre a poesia e os astros: “Ambos têm a ver com a magia”.

Escorpião (poema). Dorothea Lasky

Um acre de palmeiras selvagens. Derrubadas pela chuva? Não,

a chuva só cai. O vento cria cortinas de ímpeto invisível.

Quer dizer que os escombros inundaram toda a paisagem?

Não, quero dizer que o mundo inteiro tinha muita certeza.

Fazia perguntas. Em voz baixa. Entrava e saía de um modo

bastante metódico. Fazendo todos nós sangrarmos.

Camisas suaves e gastas dão lugar a lençóis de linho suaves e gastos que

dão lugar a corpos nus e suaves e sutis. Que dão lugar

a quê? Entrando e saindo. Do inframundo. Plantava brotos

com batatas. Ou eram laranjas? As batatas? Ah, como você é tolo!

Todo esse trigo amargo. Com que você fez o jantar.

Não, mas o que acontece com a pressa tão urgente? O que acontece

com tudo o que você prometeu à lua? Ah, esqueça tudo. Você não fará nada,

mas. Ah, siga adiante. Viva como quiser. Sem mim.

O tom de suas composições poéticas não dista do de suas referências em prosa, desta maneira conseguem que não haja diferenças entre as descrições zodiacais sustentadas em antigos ensinamentos sobre o sistema solar, o anedotário popular, a poesia, inclusive a playlist que incluem ao final do capítulo dedicado a cada signo. Para arrematar, simulam conversas do WhatsApp para exemplificar a compatibilidade amorosa entre diferentes signos.

A fórmula, embora garantam que não é premeditada ―“A poesia me escolheu , é uma vocação”, diz Dimitrov―, lhes permitiu se aproximar de um público muito jovem, entre 18 e 25 anos, levando-se em conta a idade média dos cerca de 500 seguidores que compareceram a uma leitura que fizeram em Nova York antes que a pandemia trancasse todos em suas casas. Uma plateia muito diferente da que liga a televisão tarde da madrugada para consultar seus astrólogos de cabeceira. “A Internet tornou a astrologia mais acessível”, concordam ambos.

Entre seus seguidores estão a cineasta Lena Dunham (criadora da série Girls) e as cantoras Lorde e Lizzo. “Não acho que tenhamos um público objetivo predeterminado. Eu gostaria que nossos seguidores fossem de todas as idades”, diz Lasky, enquanto Dimitrov reconhece que “os jovens parecem estar muito interessados no que fazemos, e acho que é um ótimo sinal. São pessoas muito inteligentes”. E além disso, acrescentam, “muito freaks”. “Acho que a esquisitice é uma virtude, e a dedicatória do nosso livro homenageia as pessoas que seguem seu próprio caminho”, diz Lasky. “São o único tipo de gente que vale a pena conhecer”, conclui Dimitrov.

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