Mídia

Bombas semióticas e neurofisiologia: falso The New York Times, Globo e Paulo Gustavo

 

 

As eleições de 2022 aproximam-se e as primeiras bombas semióticas começam a ser ensaiadas: a ressurreição na TV Cultura do, até então, esquecido programa Manhattan Connection (que virou “o gabinete do ódio do Dória”) e a falsa primeira página do New York Times que circulou nos perfis bolsomínios repercutindo as manifestações das camisetas verde-amarelas no primeiro de maio. As denúncias de agências de checagem e das mídias progressistas são inócuas e só reforçam os efeitos dessas bombas semióticas. Porque elas jogam no campo do automatismo da percepção do aqui e agora, o “acontecimento comunicacional”. Muito mais eficiente do que qualquer denúncia “a posteriori”. A neurofisiologia explica. Enquanto isso, a política do “morde-assopra” da TV Globo em relação a Bolsonaro ficou mais evidente em dois episódios: o mico do jornalista Álvaro Pereira Jr. e o obituário do comediante Paulo Gustavo.

 

  Wilson Roberto Vieira Ferreira

 

As eleições aproximam-se e começam a ser armadas as primeiras trincheiras e a ensaios do modus operandi da bem sucedida guerra semiótica de 2018 nas mídias de massa e redes sociais.

A primeira delas, a ressurreição da trupe do Manhattan Connection que andava esquecida e sem relevância no canal Globo News. Após deixar, sem aviso prévio, o canal da família Marinho, o programa foi adquirido pela TV Cultura em um contrato de cinco anos. E volta às manchetes com o recall do anti-petismo – mais uma vez necessário, com a proximidade do pleito presidencial.

Primeiro, com a briga entre Fernando Haddad e Diogo Mainardi… e depois quando Mainardi mandou o advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro (o “Kakay”), “tomar no cú”, após mais uma briga ao vivo. O quê essas eminências progressistas vão fazer num programa como aquele, além de elevar a audiência de uma atração que estava esquecida, esse humilde blogueiro não sabe. Mas, Manhattan Connection já ganhou a alcunha de “gabinete do ódio do Dória”. E polêmicas e espaço midiático com o episódio da “demissão” de Diogo Mainardi.

E, segundo, com a falsa primeira página do jornal New York Times (NYT) que rodou as redes sociais bolsonaristas. Uma imagem que não foi “mal feita”, mas propositalmente tosca como é da natureza dos memes. Memes não são feitos para seduzir ou convencer, mas para explorar o automatismo da percepção, dinâmica que aciona o gatilho cognitivo do compartilhamento, como veremos adiante.

O que chama a atenção nesses dois eventos preparatórios para o que está por vir, é como os supostos prejudicados ajudam a dar rendimento semiótico (visibilidade, relevância etc.) às armas do inimigo. Por que progressistas ajudam a ressuscitar um programa que estava morto e esquecido? Por que as supostamente sérias agências de checagem de notícias (Estadão Verifica, Lupa etc.) gastam tempo e espaço com um meme propositalmente tosco? Nem seriam necessárias as “científicas” ferramentas de fact-checking para desmentir algo tão óbvio:

(a) Os crassos erros de grafia na manchete (“Whants”) e de gramática (“Bolsonaro from Brazil” quando o correto seria “Bolsonaro’s Brazil”).

(b) Manchete em forma de slogan: “Bolsonaro Forever”.

(c) Misturar palavras em caixa alta (“BOLSONARO”) com palavras grafadas normalmente, numa linguagem típica de postagens em redes sociais e não de um veículo noticioso impresso. E o restante das colunas, propositalmente ilegíveis, ainda com uma foto central de 2016, e não das manifestações desse último domingo. Que não renderiam o mesmo impacto.

Canastrice gráfica

Em outras palavras, estamos diante de mais um caso de canastrice na política (sobre esse conceito clique aqui), dessa vez uma canastrice gráfica. A principal característica da canastrice é o overacting, o exagero e a imperfeição. Seja do político que mimetiza personagens ficcionais (Hitler e Mussolini emulavam os personagens cômicos do cinema slasptick; Bolsonaro, o “tiozão do churrasco” figurado em tantos filmes e comerciais), seja como nesse caso de canastrice gráfica – mimetiza a primeira página do NYT e forma propositalmente exagerada, imperfeita, tosca.

 

Canastrice não é voltada para a cognição, a reflexão ou intelecto. É voltada para o automatismo da nossa percepção. É a maneira de conseguir efeitos ideológicos por meios NÃO ideológicos.

Quando Haddad pretende debater no Manhattan Connection ou quando as agências de checagem querem desmontar uma fake news, nada mais fazem do que reforçar o rendimento dessa bomba semiótica, aditivando ainda mais o campo da percepção: dão impacto, visibilidade etc.

O que é “automatismo da percepção”? Para começar o nosso campo visual é percebido por gestalts e não partes que se somam até formar um todo. Num plano pré-racional ou linguístico, percebemos formas, o todo em primeiro lugar.

A falsa primeira página do NYT é percebida em primeiro lugar em sua totalidade, como mancha gráfica: o logo do jornal, a foto central na qual predominam multidão em verde-amarelo e caixa alta da palavra “Bolsonaro”. Um conjunto perceptual positivo ao bolsonarismo, um dia depois de ruas serem tomadas por eles no primeiro de maio. A canastrice gráfica apenas reforça a sensação.

“Falso” ou “verdadeiro” são categorias intelectuais, são juízos analíticos de fato. O fenômeno dos memes é muito anterior a tudo isso. Ao serem postados ou publicados, já era! Tudo o que for feito a posteri para combatê-lo, apenas reforçará o efeito perceptual e a sua consequência ideológica – a confirmação da narrativa de que Bolsonaro é um mito perseguido por uma maldosa conspiração.

Easter Eggs

Quanto aos erros gramaticais e de grafia na falsa primeira página, são propositais easter eggs para as agências de checagens e os críticos progressistas na ânsia de denunciar as artimanhas das milícias digitais nas redes. Primeiro, por dar a certeza de que a fake news está sendo desmontada e neutralizada. E, segundo, para dar um certo prazer de superioridade intelectual a jornalistas e críticos: “vejam como os bolsomínios são ignorantes, grosseiros e iletrados!…”.

Não veem que a efetividade dessa bomba semiótica não é neutralizada por dispositivos intelectuais. Como acontecimento comunicacional, ela já foi efetuada em outro campo, muito anterior à intelecção: o campo da afecção, da percepção.

Como acontecimento comunicacional, essa bomba semiótica opera no campo do automatismo da percepção.

Se tomarmos a célebre experiência neurológica de Benjamin Libet (cientista pioneiro no campo dos estudos da consciência humana) feita em 1980 descobriremos esse primado das afecções sobre a intelecção.

Libet mostrou que antes de qualquer movimento (por exemplo, mover um braço) há uma preparação característica da atividade elétrica no cérebro. E esta preparação acontece aproximadamente meio segundo antes da sua “decisão” consciente de mover o braço. Assim, no momento em que você pensa: “OK, vou mover meu braço”, seu corpo já percorreu metade do caminho. Isto significa que sua experiência consciente de tomar uma decisão é só um reflexo posterior que somente acontece após o cérebro já ter enviado o impulso elétrico.

Benjamin Libet

 

Nesse lapso de meio segundo está o automatismo da percepção. É onde, talvez, estejam os contágios das imagens-afecção (memes, fake news etc.), a ideologia produzida por meios não ideológicos.

Como observou o filósofo e crítico social canadense Brian Massumi no seu livro “Parables for the Virtual: Movement, Affect, Sensation” (Duke University Press, 2002), a efetividade política na cultura das imagens (principalmente nas atuais redes sociais) não tem mais a ver com empatia ou identificação emocional (dispositivos clássico da retórica ou das estratégias de sedução), mas com o poder da afecção – imagens como essa a falsa primeira página do NYT nos afetam, em primeiro lugar, sensorialmente, levando à reações automáticas: o clique, o compartilhamento, o like etc.

É claro: desde que o receptor esteja aberto a esse tipo de afecção, isto é, que predisposição e seletividade (categorias da intelecção) permitam que a percepção esteja aberta a esse tipo de estímulo. Por isso, entra em ação todas as estratégias de viralização que conhecemos através da manipulação de Big Data nos casos Brexit e Trump: algoritmos que descobrem os perfis que estejam abertos às imagens-afecção para compartilhar e viralizar.

Em síntese: pouco importam as denúncias e checagens de agências a posteriori. A guerra semiótica da (des)informação ocorre no campo da percepção, que é o campo do aqui e agora. A única forma de enfrentar as bombas semióticas como essas é evitar que elas aconteçam.

Mas como? Como diz J.K. Simons, no filme Obrigado por Fumar (2005), ao final de uma reunião com executivos da indústria de tabaco: “Bom, é uma ideia… quanto ao resto, batam esses miolos contra a mesa até que algo útil saia!”.

Morde-assopra: Sputnik V e morte de Paulo Gustavo

Dois episódios que são a prova do pudim de que, no final, a TV Globo ainda é parceira do governo Bolsonaro com a sua estratégia semiótica de morde-assopra. Apesar de posar como inimiga de primeira hora dos desmandos do governo, enquanto o jornalismo, principalmente do SBT, é chapa-branca.

A primeira prova está no mico pelo qual passou o talentoso jornalista Álvaro Pereira Jr. na série Globo Play A Corrida da Vacina. Na mesma semana em que a Anvisa não aprovou a importação da vacina russa Sputnik V por “falta de dados inconsistentes e confiáveis”, foi ao ar na série as imagens do jornalista, acompanhado de um cinegrafista, tentando entrar e filmar o interior da fábrica onde é feita a vacina Sputnik V na Rússia. Para filmar tudo, tanto escritórios quanto os laboratórios.

 

Ora, uma pauta com desfecho previsível: na atual geopolítica da vacina, nenhuma equipe de filmagem teria acesso a um lugar que só Putin poderia entrar. Ou seja, uma não-notícia: forçar uma situação para alimentar todos os estereótipos dos RAVs (Russos, Árabes e Vilões em geral) no cinema: russos não são confiáveis, não são transparentes, querem sempre esconder algo…

Um veterano e talentoso jornalista usado para criar uma não-notícia que reforça subliminarmente a decisão da Anvisa e o discurso alt-right de Bolsonaro – proteger o país da conspiração comunista internacional…

O segundo teste do pudim foi o viés hegemônico dado pela Globo à morte por Covid-19 do comediante Paulo Gustavo.

A lamentável morte de Paulo Gustavo está carregada de dois importantes sincronismos: primeiro, uma ilustre vítima da Covid-19 morre no dia da abertura da CPI da Pandemia no Congresso; segundo, o humor do comediante foi calcado nos clichês comportamentais da ascensão e decadência da nova classe média surgida no neodesenvolvimentismo dos governos do PT: a chamada “classe C”.

Sua morte é a da derrocada final de um Brasil que definitivamente não existe mais, engolido pela pandemia, negacionismo e obscurantismo político.

Apesar da emissora ter dados destaque às falas de Caetano Veloso e do comediante Marcelo Adnet que destacavam esses sincronismos, tudo foi apenas de passagem.

A morte de Paulo Gustavo poderia facilmente ser usada com libelo e símbolo da batalha contra um governo que intencionalmente sabota as políticas sanitárias em nome de uma agenda necropolítica. “Usado” nem é o termo correto, pois as conexões entre a morte do comediante e a agenda necropolítica governamental são evidentes.

Pelo contrário, a emissora optou pelo viés mais conveniente à agenda política alt-right: o identitarismo e a guerra cultural. O viés hegemônico no obituário dos telejornais foi a importância da carreira do ator no “combate à homofobia, ao racismo e a luta contra preconceitos e intolerância contra gays, negros e outras minorias”. E só! Sem reforçar as relações causa e efeito com a intencional reprodução do caos sanitário no País.

Ao lado do “gabinete do ódio do Dória” e do ensaio da indefectível guerra semiótica viral com o falso NYT, a estratégia de morde-assopra da Globo é mais uma evidência das preparações das armas semióticas para 2021.