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Brasil entra em feriadão com isolamento em queda, mortes em alta e pressões contra a quarentena

Movimento no Viaduto do Chá durante a quarentena, em São Paulo.ROVENA ROSA / AGÊNCIA BRASIL

Especialistas apontam que pandemia entra em segunda onda com focos de disseminação para além das metrópoles. Doria fala em prender quem infringir regras a partir de segunda
Movimento no Viaduto do Chá durante a quarentena, em São Paulo.

BEATRIZ JUCÁ

No momento em que enfrenta ainda a fase inicial da epidemia de coronavírus ―com 941 mortos e 17.857 infecções―, o Brasil se prepara para atravessar dois feriadões nos próximos dias em um contexto em que os brasileiros começam a relaxar o isolamento social e a aumentar a circulação nas ruas em todos os Estados do país. O afrouxamento individual se soma à escassez, até o momento, de medidas mais duras dos governantes para reduzir o fluxo de viagens. E começa a ser observado em um momento em que o país sequer entrou na fase mais aguda da crise, quando há transmissão descontrolada da doença, mas cujo sistema de saúde já sofre a pressão da pandemia.

Em meio a uma alta demanda reprimida de testagem, com longas filas de espera para a notificação dos casos positivos da Covid-19, o número brasileiros infectados conhecido ainda está distante do real. Especialistas explicam que estamos a cada dia observado um retrato de duas ou três semanas atrás e projetam que, estatisticamente, o país já pode ter rompido a marca de 86.000 casos. Apontam ainda que, se o país viveu uma primeira onda de disseminação da doença concentrada nas metrópoles, agora já enfrenta uma segunda onda com focos de disseminação no interior, que têm estrutura para tratamento de casos graves mais precária e muitas vezes dependem das cidades de referência, que já sofrem o aumento da demanda.

 

“É perigosíssimo a população começar a relaxar nesse momento. Estamos ainda no começo de ascensão da curva, num cenário de defasagem dos casos confirmados extremamente importante. Se as pessoas pensarem que já fizeram o sacrifício por três semanas e que agora podem relaxar, pode ser uma catástrofe”, afirma Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. O pesquisador desenvolve um trabalho de monitoramento com cientistas de outros Estados e têm um portal para monitoramento da disseminação do vírus pelo país. Alves destaca que o caso de São Paulo, o primeiro hub de disseminação do coronavírus no Brasil, é emblemático para entender os riscos.

Desde que o Estado decretou oficialmente as medidas de isolamento social, inclusive com fechamento de comércio, o índice de isolamento da população chegou a 60%. Duas semanas depois, mais precisamente na última quarta-feira, caiu para uma média entre 49% e 50%. Isso significa que menos da metade da população paulista segue o distanciamento social e está distante dos 70% que os especialistas que assessoram o governador João Doria (PSDB) consideram necessário para frear a disseminação do coronavírus e dar tempo para que o sistema de saúde seja ampliado e tenha condições de receber os pacientes mais graves com a Covid-19.

Para conseguir chegar a essa meta ―que Alves considera até conservadora, já que defende o isolamento de 80% da população―, o Governo de São Paulo anunciou nesta quinta-feira (9) um sistema de monitoramento inteligente. Basicamente é um acordo com quatro operadoras de celular para monitorar aglomerações e índices de isolamento da população durante a quarentena. No entanto, o governador preferiu não adotar medidas mais duras para evitar que as pessoas viagem nos feriados que se aproximam. À noite, em entrevista à TV Globo, Doria falou que cogita a aplicar multas e até pena de prisão caso o isolamento não alcance os índices esperados pelo Governo no fim de semana. “Vamos fazer o teste neste final de semana. Se não elevarmos esse nível, que hoje é de 50%, para mais de 60% e caminharmos para 70%, na próxima semana, não apenas o Governo do Estado, como também a prefeitura de São Paulo, tomarão medidas mais rígidas”, anunciou.

 

Duas primeiras semanas de junho

Mesmo que São Paulo não tenha atingido o índice que as autoridades de saúde considera necessário, o próprio Ministério da Saúde já reconheceu que o distanciamento social reduziu os índices de transmissão no Estado em um boletim publicado no último fim de semana. Dias depois, a pasta passou a divulgar gráficos de suas projeções sobre quando esperar um pico de infectados, mesmo com as medidas de distanciamento. Nos dois cenários ―com isolamento seletivo ou ampliado― se espera uma subida forte da demanda para as duas primeiras semanas de junho. Nesses casos, porém, os casos seriam mais distribuídos entre as semanas, o que daria fôlego ao sistema de saúde. Sem nenhuma medida de restrição, a curva de casos esperada seria muito mais íngrime e poderia chegar um pouco antes, ainda em maio.

Domingos Alves evita fazer projeções de quando esse pico deve acontecer ou mesmo quanto tempo ainda poderá durar a quarentena, mas pondera que relaxá-la agora pode trazer prejuízos ao combate à pandemia. O pesquisador diz que está preocupado com as recentes diretrizes do Governo Federal no sentido de relaxar a quarentena para cidades cuja ocupação de leitos hospitalares esteja inferior a 50%. Ele explica que é preciso olhar o panorama regional do sistema de saúde. “Esse relaxamento, dado que não conhecemos o cenário real pela defasagem dos testes, pode ser ponto inicial de crescimento grande e de perda de controle nos municípios”, explica. O Governo admite que há uma déficit de teste e que só 63.000 mil pessoas foram testadas para Covid-19, no país, com

O pesquisador diz que, ao monitorar os municípios paulistas, percebeu que já existem polos de infecção crescentes no interior do Estado, especialmente em cidades próximas às principais estradas paulistas. “Estamos na segunda onda, com crescimento já exponencial para vários municípios. No entorno de São Paulo, você vê claramente que os municípios que apresentaram casos ficam alinhados às principais estradas. E vários municípios tiveram polos a partir disso”, acrescenta. O pesquisador cita como exemplo cidades como Santos, Ribeirão Preto, Botucatu, São José do Rio Preto, Araçatuba, Campinas e São José dos Campos.

“Esses municípios podem se tornar novas São Paulos, com o crescimento da epidemia”, afirma. É nesse contexto que o pesquisador chama atenção para a estrutura hospitalar dessas cidades, diferente da capital. No caso de Ribeirão Preto, é uma cidade de referência que historicamente recebe pacientes de municípios menores pela sua estrutura hospitalar. “Mas há municípios no entorno que eventualmente não terão essa estrutura. Ribeirão Preto recebe pacientes de várias cidades vizinhas e até do sul de Minas. Se essas cidades pequenas relaxarem a quarentena porque têm 50% dos leitos hospitalares livres, pode inflacionar rapidamente Ribeirão, que é onde tem UTI”, explica.

O caso de São Paulo é emblemático para explicar a importância do isolamento social, mas a mesma lógica pode se estender por outros Estados, que têm estruturas hospitalares até mais precárias. Na última semana, o Amazonas entrou no grupo de Estados brasileiros que estão na iminência de entrar para a fase de transmissão descontrolada da doença. A capital Manaus, que é referência para o atendimento hospitalar dos municípios do interior e das comunidades indígenas e ribeirinhas, já disse que atua no limite de sua capacidade de UTIs, onde são tratados os casos mais graves da Covid-19.

No Ceará, outro Estado que pode estar na transição para a espiral de casos de coronavírus, a situação também está difícil. O governador Camilo Santana já começou a solicitar leitos de unidades privadas e tem feito um apelo em suas redes sociais para que a população se abstenha de viajar no feriado. “O isolamento social é para evitar o colapso do sistema. Se em alguns lugares chegar a 100% da capacidade, a pessoa que adoecer e tiver comprometimento grande, vai recorrer a qual serviço? O que acontece sempre, em todos esses municípios menores, é transferi-los para as regionais, que já estão com suas capacidades comprometidas”, explica Domingos Alves.

O pesquisador evita projetar quanto tempo pode durar a quarentena, mas teme que, caso as medidas sejam relaxadas agora, o brasileiro precise considerar a possibilidade de chegar ao final do ano com medidas restritivas, já que os Governos poderão adotar ações até mais duras para conter a disseminação e dar tempo para que o sistema de saúde se recupere. “Tem gente que acha que o isolamento não está funcionando porque a epidemia continua subindo. E ela vai subir mais, só que numa velocidade menor. É como uma mãe que diz ao filho que não faça algo porque pode ser pior. Daí o filho diz: mas nem aconteceu. Não aconteceu porque você ficou em casa”, afirma.

Domingos Alves defende que, no mundo inteiro há evidências de que o isolamento funciona e que nenhum sistema de saúde está preparado para o coronavírus. Ele pondera que o distanciamento social é um momento sensível não só para os brasileiros, mas para a humanidade. Mas, enquanto não houver um retrato mais real e atual da situação, é difícil prever quando as regras de isolamento deverão ser relaxadas. “A população tem que entender que, se a gente tomar essas medidas restritivas para ontem, a gente consegue entrever para os próximos meses um dia que as autoridades vão falar que a gente pode relaxar. Se não fizermos isso ―ainda mais com o inverno chegando, e o retorno de outras viroses sazonais― em novembro ou dezembro podemos ainda ter que estar discutindo a mesma quarentena”, finaliza.

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