Cultura

Cantora une a ancestralidade negra com o contemporâneo em álbum

A CANTORA TAMARA FRANKLIN. FOTO: NEIDE OLIVEIRA/DIVULGAÇÃO

Em seu segundo trabalho, a artista Tamara Franklin desponta como sensação com letras e batidas marcantes

Carta Capital

Ele agora inaugura o selo Estúdio304, uma plataforma independente de música. O primeiro álbum lançado dentre do projeto é Fugio – Rotas de Fuga para o Aquilombamento, de Tamara Franklin.

Chico Neves foi certeiro. O trabalho da cantora e compositora mineira tem consistência para se atrever na produção de som como ele gosta. O resultado é um bem-acabado e coeso álbum.

O registro de Tamara reúne o rap e sua batida com várias referências da cultura negra ancestral. “O trabalho traz isso em todos os detalhes, de uma forma muito cuidadosa. A proposta é essa costura entre a ancestralidade e a contemporaneidade na poesia e na estética musical, partindo de duas manifestações culturais que são muito fortes em Minas e para mim”, conta a cantora.

Ela explica que se trata da união do hip hop com o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, secular manifestação popular típica dos negros e de forte tradição em Minas Gerais, que abarca expressões afro-brasileiras como congada, moçambique, catopê, entre outras.

Inserções de violão sete cordas, instrumento símbolo da diversidade harmônica brasileira, é empregado com destaque no álbum.

“O violão foi uma sugestão do Chico Neves. Eu sempre me amarrei em propor coisas que fossem incomuns ao meu gênero musical. O rap tem uma plasticidade que me instiga a experimentar”.

Aquilombamento

O álbum Fugio fundamenta-se no aquilombamento, que representou uma nova realidade ao negro no país.

“Quilombos – na leitura que faço do meu lugar, e acho importante enfatizar isso por não ser quilombola – são locais físicos ou espirituais de acolhimento, de fortalecimento, de retomada de poder, não de um poder sobre o outro, mas de um poder sobre si mesmo, sobre a própria história e liberdade”, afirma a cantora.

“Esse conceito vem sendo resgatado pelos movimentos negros e por negros em movimento já há algum um tempo, e acho que estamos passando por isso nessa era: um momento de reconhecimento, de se acolher na imagem, história e vitória de outros pretos em vários níveis, inclusive territorialmente”.

As composições de Tamara Franklin no álbum fazem a todo tempo essa conexão, de forma muito bem resolvida, de uma voz negra potente e resoluta.

“A minha relação com a escrita é algo bem terapêutico. Às vezes tenho dificuldades de me expressar, de falar sobre como me sinto, e às vezes tenho dificuldades também de um lugar para falar, que é tão necessário, mas me é negado”.

O rap foi o caminho encontrado para expor desejos, dores e lutas. “Vocês podem observar que eu trago muito mais protestos e desabafos do que prazeres. Daí vocês podem começar a entender o quanto uma mina nas minhas condições vive tensa, sobre um stress constante. Eu acho que as letras são só a minha maneira de expressar isso, eu nunca tive ambição de ser militante, ativista. Desconfio que a maioria de mulheres pretas acabam chegando nesses lugares pelo mesmo motivo”.

O primeiro trabalho de Tamara Franklin, o Anônima (2015), foi início das reivindicações das raízes e seu resgate. Este segundo, é a continuação da narrativa em torno da sua própria definição identitária, entendendo claramente onde está inserida.

Fugio entra na lista como uma das boas novidades musicais desse ano atípico. Além da produção de Chico Neves, a direção musical é de Rafael Dejero e Camilo Gan. A banda da gravação do trabalho é composta por Dejero (baixo e teclados), Gan (percussão), Dgar Siqueira (bateria), Giuliano Coura (violão, violão 7 cordas, guitarra, guitarra portuguesa e cavaquinho) e DJ Pooh (scratches). Participam ainda do álbum Colombiana MC, Neghaum, Iza Sabino, Berê MC, Dona Beth e Coral Vozes de Campanhã.

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