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 Da retórica ao blá-blá-blá

 

 

Era ainda o início do processo para o “golpe” sobre Dilma Roussef.

Assistia um debate na TV Câmara entre dois conhecidos deputados: o representante da esquerda,  por seu histórico acadêmico,  falava pra seus pares, da acadêmia e do parlamento. Usava como de hábito uma linguagem mais condizente com quem era. Do outro lado,  o da direita; também graduado, usava uma linguagem mais “popular”, mais compreensível á sociedade brasíleira; aquela parte da população que apesar de diplomas das diversas faculdades, não são dados a letra; o título que ostenta,  buscou muito  mais para colocação em emprego, de preferência, publico,  do que lhe melhorar como profissional e pessoa. Sabe o protocolo da profissão e lhe é suficiente. E ainda, para aquela maioria de brasileiros que pouco ou nenhuma acesso teve aos bancos escolares. Estes se deixam impressionar pela fala que lhe é peculiar ou imagina que seja. A retórica lhe incomoda, pois não a entende de pronto. E se achar o outro “falústico”, lhe cria aversão.

-Só quer ser bosta! Só quer o pão com ovo!…

Naquele debate,  enquanto o esquerdista falava no espectro político nacional,  seu opositor enfatizava que Dilma“pedalou” e que também por essa razão estava tirando do povo os recursos que lhes deveria ser destinado  e por aí vai…

Poucos dias  depois, dois ou três acredito, encontrei o tal deputado esquerdista. O cumprimentei e elogiei o debate, ele agradeceu e eu lhe pedi para fazer uma pequena observação. Ele prontamente concordou e eu lhe perguntei porque ao invés de, na televisão falar ao povão, falou durante o debate ao parlamento? E Ele:

-Você não acabou de elogiar o debate?

-Sim foi ótimo, os parlamentares do Congresso Nacional e os intelectuais certamente adoraram. Eu de minha parte adorei ouvir alguém falar palavras que só tinha lido no Aurélio. Mas e o povo trabalhador não estudado? Será que entendeu sua mensagem? Agora, será que eles entenderam quando seu oponente dizia com todas as letras que o PT estava destruindo o país, que o seu partido era uma organização criminosa? Quem chegou mais perto deles?

-Eu não vou baixar o nível  – respondeu

-Não precisa, basta usar palavras que o povão entenda – respondi.

Com um aperto de mão á título de despedida me disse se afastando – Vou assistir aquela porra de novo.

Jamais voltei a vê-lo.

Passados mais de quatro anos do evento, observo mais uma vez que nossos esquedistas estão longe de tocar o coração via ouvidos do povo. As vezes me indago se a esquerda brasileira está resumida a Lula. Parece que sim, haja vista que ele, poliglota de nossa língua mãe, nos fala a todos. Desde os adeptos da riqueza vernacular e de raciocínio mais robusto , aos detentores de parco vocabulário e marginalizados das escolas.

Vemos o atual ocupante do Planalto usar o máximo que sua capacidade intelectual permite responder as perguntas de jornalistas com uma “banana”;  mas que seu assessores e filhos descobriram como chegar a parte podre do povo, acadêmicos ou não, falando sua linguagem como por exemplo o  “foda-se” eloquentemente dita pelo General Augusto Heleno ou ainda o repetidamente dito pelo filho predileto de sua excelência, Carlos Bolsonaro, popularmente conhecido como Carluxo: “Teu cu”.

Não podemos nem devemos nos rebaixar tanto, mas sintonizar melhor com a linguagem do povo talvez seja de bom tom.

Ou a esquerda se espelha no Lula e volta a se aproximar do povo ou estaremos falando para a fração da população que compõem os parlamentos e as academias.

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