Racismo Sociedade

Estudo da USP mostra que humoristas fortaleceram ‘branqueamento’ da sociedade brasileira com piadas racistas

arge publicada na revista D. Quixote em 1925, mostra diálogo entre mulher negra e senhor português — Foto: Biblioteca Nacional Digital/Reprodução
Por Vivian Reis, G1

Uma pesquisadora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) identificou que o humor praticado pela elite intelectual no período pós-escravidão contribuiu fortemente para a manutenção do racismo e, até mesmo, para o “branqueamento” da sociedade brasileira.

No estudo “Quaquaraquaquá quem riu? Os negros que não foram…”, a profa. dra. Maria Margarete dos Santos Benedicto afirma que as primeiras décadas após a proclamação da República, em 1889, foram marcadas pela busca por uma identidade nacional, pela intensificação da atividade urbana e, sobretudo, pela instabilidade social, com a maior parte da população na pobreza e formada por escravos recém-libertos.

De acordo com Maria Margarete, àquela altura, a elite política e intelectual realmente se debruçava sobre o “problema negro”, e parte dela apostava efetivamente no “branqueamento” da sociedade por meio da miscigenação e de leis, que incentivavam a imigração de colonos europeus, de modo que “a ‘raça negra’ poderia ser reduzida em três gerações”. A professora lembra que o período foi descrito pelo estudioso Abdias do Nascimento como a “materialização do racismo institucional”.

Por meio de uma ampla pesquisa e do acesso a documentos históricos raros, a professora identificou que as revistas da época, que apresentavam os primeiros textos e charges satíricas produzidas e destinadas à “classe letrada”, fortaleciam essa ideologia no modo como os negros eram representados.

“O que aprendemos nos livros é uma história eurocêntrica, com questões políticas e sociais da Europa, de modo que eu podia apenas desconfiar que a elite intelectual daquela época era racista, o que ficou comprovado na quantidade de material que encontrei na minha pesquisa, em fontes dispersas. Nessa documentação ficou nítido o empenho pelo branqueamento da nação. Era o racismo ali, literalmente, o racismo”, disse a professora ao G1.

“Há um verso do compositor Emicida que resume a minha tese e que diz: ‘a dor dos judeus choca, a nossa vira piada'”, continuou a profa. dra. Maria Margarete dos Santos Benedicto.

 

Confira abaixo algumas das charges do período encontradas pela pesquisadora.

Na charge 'Hulha Nacional', publicada em 1917, a revista D. Quixote utilizou o nome de um tipo de carvão mineral para se referir ao tom da pele de uma mulher negra — Foto: Biblioteca digital do Senado Federal/Reprodução

Na charge ‘Hulha Nacional’, publicada em 1917, a revista D. Quixote utilizou o nome de um tipo de carvão mineral para se referir ao tom da pele de uma mulher negra — Foto: Biblioteca digital do Senado Federal/Reprodução

A charge acima foi batizada “Hulha Nacional” porque hulha é um tipo de carvão e foi utilizado como referência à cor da pele da mulher negra. Na ilustração, embora elegantemente vestida, a mulher ainda pergunta, “É pá cozinhá?”, ao que o industrial branco lhe responde “é pra tudo, minha nega, pra tudo!”.

“Observemos que o trajar, as joias, a bolsa, o penteado do cabelo – que já não é crespo, mas cacheado devido ao processo de miscigenação – é a representação estética inspirada no modelo europeu, e também não deixa de ser uma representação do processo eugênico, de ‘limpeza’, pelo qual passou”, escreveu Maria Margarete no estudo.

As ilustrações constam na revista D. Quixote, de propriedade de Manoel Bastos Tigre, que também era diretor da publicação. Segundo a pesquisadora, a revista debochava da afetação típica do período chamado “Belle Époque”, ao mesmo tempo em que reforçava os estereótipos por meio de charges, frequentemente representando as pessoas negras de maneira submissa, ingênua e pouco instruídas, além de demarcar os lugares sociais que deveriam ser ocupados por elas.

Charge retirada da edição de agosto de 1017 da revista D. Quixote. Publicação produzida e dirigida à 'classe letrada' brasileira reforçava e propagava o racismo — Foto: Biblioteca digital do Senado Federal/Reprodução

Charge retirada da edição de agosto de 1017 da revista D. Quixote. Publicação produzida e dirigida à ‘classe letrada’ brasileira reforçava e propagava o racismo — Foto: Biblioteca digital do Senado Federal/Reprodução

Acima, “Chiquinho”, o jogador de futebol que não poderia ser marcado se o jogo fosse à noite. Abaixo, “Um charuto cheio de charutos”, debocha do homem negro elegante, “tout rempli de soi même” (todo cheio de si).

Charge da revista D. Quixote, na edição de agosto de 1917, debocha de homem negro elegante, 'todo cheio de si' — Foto: Biblioteca Digital do Senador Federal/Reprodução

Charge da revista D. Quixote, na edição de agosto de 1917, debocha de homem negro elegante, ‘todo cheio de si’ — Foto: Biblioteca Digital do Senador Federal/Reprodução

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