Fome

‘Fome não é por falta de alimentos, mas de renda’, diz José Graziano

Ex-ministro de Lula e ex-diretor da FAO (braço da ONU para Agricultura e Alimentação) explica crescimento da insegurança alimentar no mundo e propõe um novo programa para erradicar desnutrição no Brasil. Assista

Graziano começou analisando as causas do problema, que vem se agravando nos últimos anos, principalmente a partir do governo Michel Temer. Segundo ele, a insegurança alimentar moderada e grave não são provocadas pela falta de alimentos, mas pela falta de renda.

“Foi se produzindo uma concentração de renda extrema, que se agravou com a pandemia. Temos alimentos, mas as pessoas não têm dinheiro para comprá-los. Mas existem vários fatores que levaram a esse cenário”, começou explicando o professor.

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Como fatores macro, que afetam o mundo todo, ele citou as mudanças climáticas e os conflitos, “que são sinônimos de fome”. A nível regional, ele mencionou o fortalecimento do modelo agroexportador na América do Sul, que é o que de fato gera a concentração de renda.

“E foi encarecendo o preço dos alimentos. Se somou a alta do preço das commodities, provocada pelos baixos estoques, a desvalorização do real que não contou com a intervenção do banco central, e a grande oligopolização do nosso varejo. Temos poucas redes de supermercado que distribuem alimentos e seguraram o preço dos alimentos”, listou.

Assim, já no governo Temer, o Brasil passou a figurar no que é considerado o mapa da fome. Um país entra no mapa quando 5% de sua população está subalimentada, isto é, não consegue consumir a quantidade mínima de 2.200 calorias por dia. Em 2018, o Brasil já ultrapassava os 5%, de acordo com Graziano. Em 2020, era quase de 10% e, em junho de 2021, a Organização das Nações Unidas (ONU) calculou que 17% da população brasileira não comia o suficiente.

“Se você incluir a insegurança alimentar moderada, que é aquela que se pula uma refeição, geralmente o jantar, que os velhinhos não comem para deixar para os netos, que as famílias colocam as crianças para dormir mais cedo porque não têm o que comer, o número dobra”, ressaltou.

A situação é ainda pior para mulheres. Estima-se que para cada dez homens com insegurança alimentar, há 11 mulheres, “porque a mãe deixa de comer para dar para os filhos”. “As mulheres também sofrem mais porque têm necessidades nutricionais maiores, principalmente gestantes e lactantes, ainda que haja uma distribuição igualitária de comida entre os membros da família”, disse o também agrônomo.

Para erradicar a fome

Diante desse cenário, Graziano apontou quatro fatores que deveriam orientar futuras políticas públicas que busquem não apenas diminuir, mas erradicar a fome: “Tirar o foco da ‘produção a qualquer custo’ porque gera perdas e esse não é o problema; tratar a alimentação como uma questão de saúde e meio ambiente; cuidar não só de poder comer, mas de poder comer mais saudável para evitar sobrepeso; e criar políticas alimentares mais flexíveis, não só dependendo de commodities, mas diversificando a produção e apostando na agricultura familiar”.

Essas propostas colidem com os monopólios capitalistas, mas o agrônomo reforçou que é o caminho a se buscar, pois o sistema atual gera mais doenças do que garante alimentação e nutrição para a população. Para concretizar essas propostas de longo prazo, Graziano disse que o ideal seria propor a desconcentração de terra, inclusive com reforma agrária, mas que foque nas cidades.

“As cidades em vez de ter um cinturão hortícola em volta, têm um cinturão de especulação imobiliária. Poderíamos fazer uma reforma agrária de pequenas dimensões de terra e moradia, já que um dos grandes problemas atuais também é a questão da moradia. Fazer um grande programa de moradia popular ligado à hortas ecológicas comunitárias em terrenos em especulação no entorno das cidades. Até porque propriedades menores atendem melhor as demandas ambientais”, sugeriu.

O professor também ponderou que seria necessária uma mudança de hábitos, pois o consumo de carne por todos no ritmo que se consome nos países mais ricos é insustentável. Isso não significa, contudo, que o mundo deveria ser vegetariano ou vegano, na visão dele, apenas que se deveria diversificar as fontes de proteína, incluindo carnes brancas, ovos e mais verduras e vegetais.

Pensando no curto prazo e em programas de combate à fome emergenciais, Graziano ponderou que, apesar de essenciais em situações de calamidade, como a atual, precisam servir de base para políticas estruturais, de Estado, não de governo, “porque você come todos os dias”.

Nesse sentido, um novo governo de esquerda precisaria repensar políticas de combate à fome anteriores. “O que fizemos antes não é mais suficiente, não adianta pensar só em fome zero, mas em sobrepeso zero, porque vamos herdar um problema de obesidade da pandemia” disse.

O agrônomo advogou pela implementação de programas de educação alimentar nas escolas, políticas de etiquetagem nos alimentos alertando para as quantidades de sal ou açúcar, e fortalecimento de bancos de alimentos e cozinhas comunitárias.

“Também recriaria o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional para articular os diferentes setores públicos (unidade entre políticas de alimentação escolar, agricultura ecológica, etc) e o setor privado. Também retomaria o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar”, propôs.

Graziano ainda enfatizou que é preciso passar a ver o acesso ao alimento como um direito, “não um favor político”, com mais presença do Estado garantindo esse direito e controlando os preços e o mercado, principalmente em momentos de catástrofe, como foi a pandemia.

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Ataíde Santos

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