Racismo

Funcionário de supermercado no DF diz ter sido vítima de racismo, procura polícia, e é demitido

Douglas Ferreira diz ter sido vítima de racismo, no DF

Por G1 DF e TV Globo

Um jovem de 18 anos, repositor de mercadorias em um supermercado na região de Santa Maria, no Distrito Federal, diz ter sido vítima de racismo praticado por uma colega de trabalho . O episódio ocorreu no dia 12 de agosto.

À Polícia Civil, Douglas Ferreira contou ter sido chamado de “preto sujo” e de “saci-pererê” – personagem do folclore brasileiro.

 

O crime foi registrado como injúria racial, na 33ª Delegacia de Polícia, de Santa Maria. Após o episódio, a vítima, uma testemunha do caso e a mulher suspeita de ter praticado o crime foram demitidos.

 

Em nota, o supermercado Vivendas disse que o caso “foi isolado”, afirmou que tem “compromisso contra o racismo estrutural” e disse ainda que os envolvidos “estavam em contrato de experiência” (leia íntegra da nota mais abaixo).

A mulher que teria praticado o crime trabalhava na área da limpeza. Ela foi presa em flagrante, porém, pagou fiança e foi liberada. O nome dela não foi divulgado.

‘Preto sujo’

 

À reportagem, Douglas contou que estava trabalhando, quando outro colega relatou que a funcionária tinha feito os insultos. O jovem diz que tentou resolver a situação com a mulher e com os supervisores, no entanto, não conseguiu e, por isso, decidiu chamar a polícia.

“Comecei a chorar, inconformado. Perguntei o motivo [das ofensas], mas ela começou a debochar, querendo me insultar. A gente quer Justiça”, diz Douglas.

 

Douglas Ferreira, de 18 anos, diz ter sofrido racismo no trabalho, no DF — Foto: TV Globo/Reprodução

Douglas Ferreira, de 18 anos, diz ter sofrido racismo no trabalho, no DF — Foto: TV Globo/Reprodução

 

José Ribamar, que testemunhou o crime e trabalhava no local há cinco meses, reclama de ter perdido o emprego.

“Fui mandado embora, por causa de um crime que é racismo e eu testemunhei”, diz o ex-colega de trabalho.

 

O supermercado Vivendas justifica as demissões alegando que houve redução no quadro de funcionários “devido à pandemia de Covid-19“. A empresa diz ainda que vai cobrar “providências necessárias” por parte da gerência e da polícia.

Funcionário de supermercado no DF diz ter sido vítima de racismo — Foto: TV Globo/Reprodução

Funcionário de supermercado no DF diz ter sido vítima de racismo — Foto: TV Globo/Reprodução

Aumento de casos

 

Dados mais recentes da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP) mostram que os casos de injúria racial cresceram 17% em relação ao ano passado. De janeiro a julho, foram 293 ocorrências. Em igual período do ano passado, as delegacias de Brasília computaram 249 registros.

Em relação aos casos de racismo (veja diferença abaixo), houve aumento de 20%. Nos primeiros sete meses de 2020, foram cinco casos, e este ano, o número passou para seis.

A pesquisadora de relações raciais da Universidade de Brasília (UnB) Kelly Quirino afirma que as vítimas desses crimes estão com mais coragem de denunciar. “Episódios de racismo que a gente vive nos últimos anos têm feito com que a população denuncie mais. Isso é reflexo de uma maior consciência racial das pessoas”, afirma.

De acordo com a especialista, entender como o racismo opera, faz com que as pessoas se sintam encorajadas a denunciar os casos.

“O que resta pra gente é avançar na prerrogativa judicial, porque muitos casos de racismo são enquadrados como injúria racial”, diz a pesquisadora.

 

Racismo e injúria racial

 

De acordo com a legislação brasileira, o crime de racismo é aplicado quando a ofensa discriminatória é contra um grupo ou coletividade. Por exemplo, impedir que negros tenham acesso a um estabelecimento comercial privado.

Já com base no Código Penal, injúria racial se refere a ofensa à dignidade ou decoro, utilizando palavra depreciativa referente a raça e cor com a intenção de ofender a honra da vítima.

Denúncias

 

Entre os casos registrados nos últimos dias, está o do morador do Guará que diz ter sofrido racismo ao embarcar em um carro de transporte por aplicativo. O crime ocorreu quando Patrick Vinicius, de 25 anos, levava o filho, de 3 anos, para a creche, no dia 30 de julho.

De acordo com a vítima, o motorista disse que “preto de manhã não vai entrar no meu carro”. O caso foi registrado na Polícia Civil.

Dias antes, em 29 de julho, uma mulher de 64 anos foi presa em flagrante por injúria racial, em Taguatinga. Pai e filho estavam na calçada, em frente a um shopping da região, quando a idosa passou por eles e iniciou as ofensas.

No momento das agressões, o técnico em telecomunicação Alcides Jesus Santos, de 39 anos, filmava o pai, José Barbosa dos Santos, de 70 anos, em frente ao estabelecimento comercial. Eles voltavam de uma consulta médica. O idoso faz tratamento contra um câncer.

Leia íntegra da nota do supermercado

 

“Na última sexta-feira (13/08/2021) [segundo a Polícia Civil, caso ocorreu na quinta (12)], o Grupo Vivendas teve um episódio isolado em suas dependências, em que dois colaboradores se desentenderam perante clientes e funcionários, tanto um, quanto outro, agredindo de forma recíproca, utilizando-se de palavras indecorosas, desmerecedora e até racistas.

A gravidade do episódio causou enorme sofrimento e indignação em todas as pessoas presentes (clientes e colaboradores), ali estando para trabalhar e adquirir produtos no varejo a suprir a alimentação, limpeza e higiene pessoal, o que causou enorme constrangimento aos presentes.

*Com adaptações

Atos racistas como o ocorrido na última sexta feira, por briga entre funcionários da empresa, são frequentes na vida das pessoas negras e devem ser combatidos firmemente, evitando qualquer forma de cumplicidade.

O Grupo Vivendas tem o compromisso de lutar contra o racismo estrutural e cobrará que sejam tomadas as providências necessárias por parte da gerencia e da Polícia Investigativa, local para onde os colaboradores em conflito foram encaminhados.

A permanência e funcionamento da empresa no local está sujeita a que sejam tomadas medidas concretas para que episódios como esse não se repitam. O Grupo Vivendas repudia de forma veemente toda forma de racismo. Como empresa varejista de alimentos e materiais de limpeza, é nossa responsabilidade enfrentar o racismo nos diferentes espaços que ocupa, de forma a promover lugares seguros e acolhedores para todos os corpos.

Na qualidade de fato isolado ocorrido no interior da empresa, em que dois colaboradores se desentenderam, sendo um Auxiliar de Serviços Gerais e outro Repositor, ambos em Contrato de Experiência até dia 27/08/2021, um deles já com pedido de desligamento em 10/07/2021, em virtude de redução de quadro por motivos da Pandemia de COVID-19, razão porque a empresa houve por bem não renovar o Contrato Temporário de Experiência de ambos.

Estes fatos ocorridos recentemente contra mulheres, indígenas, negras, negros, lésbicas, gays, transgêneros são profundamente lamentáveis, e chamam a atenção para a necessidade urgente de uma ação de ordem Federal mais profunda em relação ao racismo e toda e qualquer forma de discriminação, além da realização de atividades educativas, sem perder de vista os processos e possíveis desdobramentos punitivos.

Não se pode tolerar o questionamento de identidade étnica, sexual, de gênero, religiosa ou de qualquer natureza.

Assim, o Grupo Vivendas, como este ato, se solidariza com todos que têm sofrido algum tipo de constrangimento e discriminação, reafirmando o compromisso com a promoção da igualdade étnico-racial, de gênero, sexual, religiosa, repudiando toda e qualquer manifestação de preconceito para com negras, negros, indígenas, quilombolas, mulheres, homossexuais e todos os grupos sociais historicamente discriminados nesse país.”