Saúde

Gasto com kit Covid permitiria comprar 5,9 milhões de doses de vacina

Igo Estrela/Metrópoles

Os investimentos federais com remédios sem eficácia comprovada também poderiam bancar a abertura de 3,7 mil leitos de UTI

Victor Fuzeira e Lucas Marchesini, do Metrópoles

Hoje lutando para evitar um desabastecimento nacional de insumos para tratamento hospitalar de pacientes graves da Covid-19, o governo federal destinou R$ 89 milhões apenas para compra de remédios sem eficácia comprovada na recuperação de infectados. Com o montante gasto nos medicamentos, seria possível financiar a aquisição de 5,9 milhões de doses de vacina contra o novo coronavírus.

Cada vacina distribuída pelo governo federal teve custo unitário de R$ 15,12, conforme dados do Ministério da Saúde. O dinheiro seria capaz, então, de financiar os quase 6 milhões de imunizantes. O total de doses é suficiente para vacinar completamente toda a população adulta do Distrito Federal.

O dinheiro usado pelo Executivo na compra dos remédios usados no chamado “kit Covid” (azitromicina, ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina e oseltamivir) também permitira a abertura de, pelo menos, 3,7 mil leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) para hospitalização dos infectados.

Isso porque, de acordo com dados do Ministério da Saúde, os custos com a contratação de um grupo de 10 leitos de UTI giram entre R$ 239 mil e R$ 299 mil. Os R$ 89 milhões, portanto, financiariam entre 298 e 372 grupos – de 2.980 leitos no maior valor a 3.720, no menor.

Kit intubação e máscaras

Mais do que a falta de leitos para pacientes, as redes pública e privada de saúde enfrentam o risco de desabastecimento geral de remédios utilizados no “kit intubação”. Segundo levantamento realizado pelo (M)Dados, núcleo de jornalismo de dados do Metrópoles, com base no Painel Covid, um terceiro destino possível para este montante seria a compra de remédios usados para intubar pacientes em situação grave por conta do coronavírus.

Um dos integrantes deste kit é o propofol. No último pregão registrado no Painel Covid, o preço por ampola da substância usada em sedação de pacientes para intubação foi de R$ 31. Os R$ 89 milhões comprariam quase 2,9 milhões de unidades do sedativo.

Outra finalidade para o dinheiro poderia ser a aquisição de máscaras de proteção do tipo N95, cujo uso é recomendado por especialistas. A reportagem encontrou dois pregões para aquisição do produto, um com o preço unitário de R$ 3,59 e outro com valor por unidade de R$ 8,65. Assim, entre 10,3 e 24,8 milhões de máscaras poderiam ter sido adquiridas com os recursos gastos em remédios sem eficácia contra a Covid-19.

Gastos injustificáveis

Para Francisco Antônio Coelho Júnior, professor do curso de pós-graduação em administração pública da Universidade de Brasília (UnB), o governo não cumpriu com a “hierarquização dos gastos para o atendimento de demandas mais emergenciais”.

“Não sei as bases em que essa decisão [de investir R$ 89 milhões em remédios sem eficácia comprovada] foi tomada. Não diria que houve uma falha, mas a prioridade foi assentada em outras premissas que não a resolução de problemas imediatos e emergenciais”.

O especialista em administração pública avalia que a decisão do governo federal não considera a necessidade prioritária da população.

“Se você tem toda uma demanda emergencial para resolver e investe em outra finalidade, como nesses kits de tratamento precoce, as bases para essa tomada de decisão não consideraram a priorização da necessidade. Há uma hierarquia de necessidades para o atendimento do bem comum da população que não foi cumprida nesse caso”, disse.

“Viés político”

Na última quarta-feira (31/3), a Organização Mundial da Saúde (OMS) voltou a recomendar que pacientes não utilizem e profissionais de saúde não receitem o uso de ivermectina para tratamento da doença, com exceção do uso para estudos clínicos.

Em nota, a OMS afirmou que o antiparasitário apresenta “muito baixa evidência” sobre sua eficácia no combate ao vírus pelo organismo. A ivermectina é apenas um dos vários remédios receitados por médicos no tratamento com o kit Covid.

O médico infectologista do EuSaúde Luis Gustavo Santos classifica que o uso do medicamento extrapolou o âmbito científico e adotou “viés político”.

“Quando a doença surgiu, tudo foi buscado no âmbito do tratamento para o vírus, e a ivermectina já tinha mostrado atividade antiviral em estudos in vitro, que possuem grande diferença para os estudos in vivo. Os resultados foram obtidos com dosagens extremamente elevadas, não recomendadas em bula pela produtora do remédio”, explicou.

Segundo o profissional de saúde, “não há solução satisfatória que não uma vacina”. “Estudos descartaram que houvesse alguma melhora no que quer que seja dos pacientes. Vejo um viés político em um kit que é completamente inócuo”, completou.

Efeitos colaterais

O infectologista César Carranza, do Hospital Anchieta de Brasília, alerta para o uso dos remédios do kit. Segundo o médico, há risco de que os usuários do tratamento sofram com efeitos colaterais.

“Esses medicamentos podem ter efeitos colaterais potencializados. Falando, especificamente, em ivermectina há a toxicidade hepática. Pacientes estão evoluindo para a necessidade de transplante hepático. Nós temos observado que os exames se alteram mais nesse paciente que fez o uso do remédio, do que em quem não tomou”, pondera.

Já a azitromicina e a hidroxicloroquina podem levar o paciente a desenvolver arritmias cardíacas. “Se você tomar os dois o risco é dobrado, potencialmente. Reforço aqui que o remédio é ineficaz e há grave risco de apresentar problemas futuros. O infectado se não tomar ou se tomar [o kit Covid], vai sarar do mesmo jeito. Há um grau de efeito placebo nos remédios, pois a cura é espontânea”, finaliza.