Política

José Dirceu: a prioridade é defender as eleições e a posse do eleito

(Foto: Lula Marques | Reuters)

Ex-ministro defende que a frente unitária para derrotar Jair Bolsonaro deve ter como princípios reconhecer o calendário eleitoral, o pleno direito dos candidatos inscritos e a garantia de posse do candidato eleito

247 – O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirma, em sua coluna no Poder 360, que Jair Bolsonaro recuou dos ataques que fez contra a democracia nas manifestações golpistas do dia 7 de setembro “porque deu-se conta de que não tinha condições de combater em duas frentes: contra as oposições de esquerda e progressistas e contra a centro-direita liberal, sócia de seu governo naquilo que conta, ou seja, as reformas neoliberais”.

Segundo o ex-ministro, é preciso defender a democracia e que “para derrotar Bolsonaro, a frente unitária que defendemos tem que ter como princípios reconhecer o calendário eleitoral, o pleno direito dos candidatos inscritos e a garantia de posse do candidato eleito”.

Leia a íntegra do artigo:

Bolsonaro foi derrotado, recuou, chamou Temer e propôs uma espécie de armistício, mas não sua rendição. Era o único caminho que lhe restava. Seu objetivo continua a ser se manter no governo e ser reeleito, mesmo que isso pareça no mínimo improvável –se não impossível. Isolado, perde popularidade e competitividade. De outro, a Justiça, no caso o STF, continua a impedir que cumpra suas ameaças de implantar no Brasil uma ditadura militar.

Recuou porque deu-se conta de que não tinha condições de combater em duas frentes: contra as oposições de esquerda e progressistas e contra a centro-direita liberal, sócia de seu governo naquilo que conta, ou seja, as reformas neoliberais, os interesses do mercado, daqueles que detêm o poder econômico no país.

Não há condições políticas e sociais para um golpe militar, embora os comandantes das Forças Armadas, em declarações públicas, reforcem o ideário conservador dos tempos da Guerra Fria defendido por Bolsonaro, embalado num corporativismo de que todos se beneficiam –menos a sociedade brasileira. A sucessão de Bolsonaro continuará sendo um fator determinante da conjuntura nacional até porque o centro de toda estratégia do próprio presidente é sua reeleição e a busca de um regime autoritário.

Não há como abstrair esse fator. A questão é como combinar essa realidade com a necessária defesa tanto da democracia, como, principalmente, do calendário eleitoral e da posse do eleito. Há que se ater aos fatos. As manifestações em defesa da democracia, promovidas pelas forças de oposição de esquerda e popular, eram comandadas pela palavra de ordem fora Bolsonaro e, secundariamente, contra a direita liberal, até recentemente sócia de Bolsonaro. Parte da mídia, de uns meses para cá, também se posicionou contra o presidente, muito especialmente pela sua gestão mais do que irresponsável –assassina– à frente da pandemia. Só muito recentemente partidos da direita liberal e setores do empresariado, frente ao avanço do discurso fascista de Bolsonaro que prenunciava a preparação real do golpe, decidiram passar a defender seu impeachment.