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Mais um dia de loucuras de Bolsonaro, por Luis Nassif

Há uma confusão enorme entre o suposto conflito entre saúde e economia. Ontem, na rádio Jovem Pan, Jair Bolsonaro voltou a insistir na liberação da quarentena. Disse que até a semana que vem assinará uma medida provisória acabando com o confinamento horizontal.

Onde está o engano?

Sem o controle estrito da pandemia, haverá uma explosão da doença. Os cálculos de letalidade da doença escondem um problema maior. Se a quantidade de infectados exceder a do número de leitos disponíveis na rede hospitalar, ninguém mais poderá ser atendido, nem os portadores da COVID-19, nem qualquer outro paciente grave ou leve. Simplesmente paralisa toda a rede hospitalar. Na Itália, Espanha e Estados Unidos, a leniência com a doença provocou a explosão dos infectados e mortos.

A doença ataca os pulmões. O paciente necessita de ventiladores para poder respirar. Não existe quantidade suficiente de ventiladores, nem de equipamentos de defesa de saúde, essenciais para médicos e enfermeiros que trabalham na linha de frente. Sem os ventiladores, a pessoa não respira. Aí, a letalidade explode devido à falta de condições da rede em atender os infectados.

Recorde-se que no início da pandemia, Jair Bolsonaro autorizou a remessa, para a Itália, de ventiladores que estavam retidos na alfândega devido a instruções do Ministério da Saúde, para preserva-los para atendimento interno.

Explodindo a rede de saúde, explode a pandemia, paralisando a economia da forma mais desorganizada possível. O pânico passa a dominar os movimentos de massa, e não haverá voz de comando capaz de restaurar o bom senso.

Ontem, na entrevista à Jovem Pan, Bolsonaro deixou claro que sua posição obedece a uma lógica política. Segundo seu raciocínio tortuoso, com a quarentena os governadores pretendem derrubar a economia para comprometer seu governo. E pretendem manter a quarentena com recursos do governo federal, para bancar o sustento dos vulneráveis. Logo, a reação lógica (no raciocínio bolsonariano) consiste em boicotar a quarentena, atrasar os repasses, ao ponto dos necessitados partirem para saques e outros gestos desesperados, e jogar a conta no colo dos governadores.

Chegando nesse ponto – como ficou claro na entrevista – ele convoca a Força Nacional para as operações GLO (Garantia de Lei e Ordem).

Trata-se, portanto, de uma ação deliberada para provocar o caos.

A entrevista foi coalhada de nonsense.

Primeiro, defendeu o relaxamento da quarentena, propondo o atendimento vertical, com cada família cuidando de seus filhos. Depois, criticou a quarentena afirmando que na maioria dos casos as famílias de baixa renda vivem aglomeradas, portanto não haveria justificativa para proibir aglomeramentos públicos.  Ora, sua própria afirmação demonstrava que não haveria, em grande parte das casas, a possibilidade de isolar os mais velhos. Um membro da família, infectado na rua, significaria a condenação de toda família.

Outro exemplo claro do boicote veio do presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) Gustavo Montezano, companheiro de farras de Eduardo Bolsonaro. Em outras pandemias, o BNDES se valeu de um fundo para financiar a produção de vacinas da Fiocruz. Desta vez, o aporte foi vetado por Montezano. A Fiocruz acabou propondo uma vaquinha pública e recebeu ajuda da Justiça Federal, que encaminhou a ela R$ 26,9 milhões das multas da JBS.

Para segurar os abusos de Bolsonaro, foi criado um Estado Maior dentro do Palácio, como uma espécie de interdição branca de Bolsonaro, conforme mostrei ontem no “Xadrez de como os generais enquadraram Bolsonaro”, no qual detalho os movimentos registrados em Brasília para colocar o país a salvo do presidente.

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Na entrevista, Bolsonaro deixou claro seu temor de ser apeado do cargo. É o que segura, por ora, suas loucuras maiores. Mantido no cargo, no entanto, ainda deterá poder de fogo para implodir o combate ao coronavirus.

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