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Moro X Bozo. Traição! Faltou até a lealdade entre canalhas

Que qualidades Moro viu em Bozo, para abrir mão de sua carreira? O ego falou mais alto. Bozo não queria equipe, queria cúmplices e Moro topou.

O que Sérgio Moro não sabia, antes, sobre o atual “presidente” da República? Por que esperou o coitado de um haitiano, chegar diante dele e dizer: “Você acabou, você não é mais presidente?”

Herói bufão. Sob aplausos das ditas elites e da classe média falso moralista, oportunista, pretensamente apolítica e apartidária, a Farsa Jato destruiu o ordenamento jurídico nacional e quis ser ela própria a substituta natural da política. No iter criminis contra a democracia, destruiu reputações, promoveu suicídio, quebrou empresas, desempregou milhões de pessoas, estimulou a crise e derrubou, sem crime, a ex-Presidenta Dilma Rousseff. Praticou inúmeras ilegalidades numa relação promíscua entre policiais, Ministério Público e Justiça Federal. Na maior lambança jurídica da história, condenou sem provas e levou à cadeia aquele que venceria o pleito de 2018. Tudo, num grande acordo nacional com supremo e tudo, com o Exército monitorando o MST, como disse um bandido.

Numa eleição fraudulenta, não necessariamente pela contagem de votos, mas pelo processo em si, com regras alteradas de última hora, tempo de campanha reduzido, decreto de silêncio para o uso da palavra Lula, a farsa se consolidou. Seria longo demais chafurdar o lamaçal da Farsa Jato na maracutaia eleitoral. Tudo pago pelo além, suspeitas dinheiro vindo das sacristias internacionais, das contabilidades obscuras das milícias. Até hoje não apuradas, entre lendas de sigilo.

Foi assim que transformaram em presidente o maior palhaço da história. Na cola dele, uma horda de oportunistas se elegeu, gente do gênero Bolso-Dória. Colado na tramoia jurídica da Farsa Jato, outra legião de crápulas engrossou o caldo da hipocrisia. Tudo farinha do mesmo saco.

Com naturalidade, expoentes jurídicos se converteram em paladinos morais, negando a ordem jurídica, fazendo apologia à violação de cláusulas pétreas da Constituição. Como desculpa, o combate à corrupção. Justo ela! Coitada da corrupção, da qual se alimentou a elite brasileira – sonegadora por excelência, apática à miséria social, estruturalmente ladra, preconceituosa, covarde e entreguista. Corrupção, aliás, na qual se forjaram as Vestais da grande mídia, PF, MPF, JF. Foi com ela que se construíram patrimônio, carreiras, status, projeção…

Da Farsa Jato nasceu o falso herói, o hoje ex-quase tudo Sérgio Moro. Ele e Bozo tiraram proveito um do outro. Bozo nunca negou ter levado o ex-juiz para seu governo sob a promessa de vaga no Supremo Tribunal Federal. Em troca, Bozo, cercado de suspeitas por todos os lados, usou Moro para dar selo de honestidade ao seu desgoverno. Os dois conheciam um ao outro. Tinham em comum o espírito antidemocrático, ímpetos tiranos, desrespeito às leis, um pé no obscurantismo. Eles se merecem.

De um lado, um juiz parcial carreirista, marqueteiro de preto, pródigo na violação das leis, autor de quase 300 prisões já declaradas ilegais pelo STF. Sua capivara impune contempla os crimes revelados pelo The Intercept, coações para delações premiadas que resultaram na legalização de dinheiro sujo em favor de delatores. Fraude em escutas editadas até da Presidência da República. Partícipe ativo do conluio para impedir a candidatura de Lula. Fez da Lei letra morta.

Na outra ponta, um defensor da ruptura democrática, apologista da tortura e do genocídio, do estupro, da dizimação de índios. Queria explodir bombas em quartéis do Exército e na principal adutora de água da capital fluminense por reajuste salarial. Com 25 anos de inutilidade na Câmara Federal, lavou dinheiro de um dos inúmeros partidos aos quais se filiou, disse o político Ciro Gomes. Fez da política uma sesmaria de sua família. Entretanto se elegeu negando a política.

Que qualidades Moro viu em Bozo, para abrir mão de sua carreira? O ego falou mais alto. Bozo não queria equipe, queria cúmplices e Moro topou.

Ainda que Moro tenha tentado destruir o concorrente de Bozo, este não precisaria de Moro para se eleger. Mas Moro, para continuar o estrelato e ganhar uma cadeira no STF precisaria, sim, do Bozo. Nesse sentido, Moro traiu, sim, o Presidente e não é para ninguém ficar triste com isso. Omisso, silente sobre toda onda de suspeita em volta do seu chefe, queima de arquivos com respingos na Presidência da República, Moro ficou quietinho até quanto a motim de policiais. Ao dos primeiros sinais de barco afundando, ratos saindo do porão, revelou-se traidor. Já o tinha sido em relação à toga, à Constituição, ao País.

Moro fez de sua saída uma delação premiada e quem viver verá o prêmio, pois a Globo vai ajudar.

“Moro e Bolsonaro não queriam autonomia da PF, disputavam qual facção teria controle sobre a corporação”, disse o colunista Jefferson Miola.

Uma entidade de classes dos delegados da PF se queixou formalmente do descaso de Moro para com a instituição. Delegados o acusam de violar sistematicamente o ordenamento jurídico. Dizem que a PF vinha sendo excluída da coordenação de trabalhos e teve funções usurpadas. Acusam o ex-ministro de ter estado, então, criando e alimentando animosidade entre PF, Polícia Rodoviária Federal e Ministério Público. Alertam para o risco de investigações serem anuladas por conta de ilegalidades incentivadas por Moro.

As operações da PF tiveram queda drástica, desde que Moro assumiu o controle da instituição. Estava mesmo preocupado com a autonomia da PF? Talvez para interesses outros, mas é visível que estava criando nichos investigatórios fora da instituição. É de se concluir, pois, que Moro estava passando chuva na PF, aguardando a prometida ida para o STF. Mas se antes disse algo lhe acontecesse, sua família estaria amparada, pois, segundo ele, foi a única condição imposta para aceitar o cargo. Corrupção?

Moro não estava nem aí para a PF, mas o chefe sim. Queria ter controle sobre ela, diz Moro. Do mesmo modo como controlou o COAF em circunstâncias nada republicanas.

Bozo X Moro é como se estivesse em prática um novo, invisível e obscuro acordo. Moro daria “selo moral” a Bozo, como segunda parcela do jeton pela prisão de Lula. Como ministro, Moro foi omisso o suficiente, mas quando a coisa deu ruim para o chefão resolveu abandonar o barco. Sai como traidor, embora para TV Globo et caterva seja “herói” Macunaíma.

Megalomaníaco, Moro rompeu mais uma vez. E, sabe-se lá qual foi o novo acordo, a negociata no breu das trevas, qual terá sido a barganha.

Tudo isso ocorreu num arremedo de República e Democracia, num país de soberania vendida, instituições sob chantagem. Fosse no mundo das milícias, das cadenas, presídios de alta segurança, seria apropriado dizer que faltou até a lealdade entre canalhas, entre bandidos… Com a palavra Marcola!

Já vai tarde!

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

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