Política

Não vejo refluxo do autoritarismo no Brasil, mas uma grande turbulência social a caminho, diz Boaventura à TVGGN

 

Pandemia mostra importância do Estado forte, mas crise é insuficiente para acabar com o neoliberalismo. Haverá ataques a direitos civis e políticos após a retirada dos direitos econômicos e sociais

Jornal GGN – O Brasil caminha para uma “turbulência social” catalisada pelas políticas neoliberais do governo Bolsonaro e os efeitos da pandemia do novo coronavírus. É o que avalia o jurista Boaventura de Sousa Santos em entrevista exclusiva ao jornalista Luis Nassif, na TVGGN (assista abaixo).

Ao contrário disso, elas tendem a produzir mais arrocho com a concentração de renda e esvaziamento dos serviços sociais, e respostas mais violentas a eventuais convulsões sociais. Em países com “regimes totalitários – e o Brasil é um bom exemplo disso, é hoje um sistema híbrido, com uma parte legal e uma parte ditatorial e protofascista – aproveitam a pandemia para aprovar leis ainda mais autoritárias. Este é o cenário, e não estou prevendo refluxo, mas uma grande turbulência.”

Para Boaventura, estamos assistindo de camarote a uma “mudança de época”. “O modelo de democracia liberal vive uma tensão entre a soberania popular e os direitos sociais e a acumulação do lucro fácil. Por algum tempo, as políticas de Estado conseguiam equilibrar a tensão com uma tributação forte que conseguia fazer alguns investimentos sociais para minimizar os custos das crises, atenuar os conflitos e permitir a sobrevivência dos serviços públicos. (…) Hoje, com o neoliberalismo, isso cai. As empresas em nível multinacional pagam zero impostos [em comparação com o faturamento]. A democracia perde força na luta contra o capitalismo”, diz.A incompatibilidade entre o princípio democrático da inclusão e o capitalismo rentista está erodindo a democracia liberal em alguns países. Na Colômbia, que está em chamas, isto é visto com maior clareza. Ali, o “fim do neoliberalismo será violento”. “Quando eu digo ‘fim do neoliberalismo’, não quer dizer que o neoliberalismo vai terminar, mas que vai entrar em uma fase muito mais violenta. O que se vê no Brasil é realmente isso. Não se ataca só os direitos sociais e econômicos. Agora os direitos à livre expressão, direitos dos partidos, a manipulação da opinião pública, a intimidação, o lawfare… é atacar direitos cívicos e políticos. Quando se chega a esse ponto, eu penso que a democracia não tem grandes chances de sobreviver.”