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Por que jornalismo corporativo está tão incomodado com documentário ‘Bolsonaro e Adélio’?

terça-feira, setembro 21, 2021  Wilson Roberto Vieira Ferreira

 

 

Nesse momento, o jornalismo corporativo reage com o fígado (e com muitas falácias lógicas e adjetivos) contra o documentário “Bolsonaro e Adélio: uma fakeada no coração do Brasil”. Até o deputado arrependido, Alexandre Frota, ganhou manchetes com o seu pedido de “CPI da Facada” sob o impacto do documentário nas redes – mesmo bolsonarista arrependido, Frota continua útil na guerra criptografada de informações alt-right, ao contaminar uma CPI com sua “credibilidade”. Para além da estratégia morde-assopra da grande mídia (no fundo, Bolsonaro ainda é a sua única “esperança branca” neoliberal), há algo mais profundo: um misto de inveja e pânico ao ver um didático exemplo de jornalismo investigativo, há muito convenientemente esquecido pelos veículos corporativos de imprensa – um tipo de jornalismo preguiçoso que confunde “investigação” com “checagem” ou “apuração”, prática de um jornalismo que trabalha unicamente sentado.

 

“Petistas divulgam documentário que insinua que facada em Bolsonaro foi falsa”… “Petistas estimulam teses fantasiosas de que facada de Adélio em Bolsonaro foi falsa”… “PT entrevistará autor de documentário sobre tese de que foi fake”… “Alexandre Frota protocola pedido de CPI da facada em Bolsonaro: ‘Foi premeditada’”…

Essas foram algumas reações do jornalismo corporativo (respectivamente, do O Globo, Folha, Yahoo e IstoÉ) ao documentário do experiente e premiado jornalista Joaquim de Carvalho ao site Brasil 247 intitulado Bolsonaro e Adélio: uma fakeada no coração do Brasil, financiado coletivamente por assinantes e apoiadores do portal de notícias.

As reações da grande mídia seguiram a velha estratégia de comunicação alt-right: tentar sistematicamente desautorizar o interlocutor, ao invés de apresentar contra-argumentos em um debate. Desautorizar ou pela via direta (a onipresente sigla “PT” ou o substantivo coletivo “petistas” nas manchetes) ou através da marota via indireta – destacar que o “arrependido” deputado ex-bolsomínio, Alexandre Frota, protocolou pedido da abertura de uma “CPI da Facada”… Mesmo “arrependido”, Frota continua muito útil à guerra criptografa da direita alternativa, ao transferir toda a “credibilidade” do deputado ex-bolsonarista a um pedido de CPI.

No todo, a grande mídia ignorou, tentou “melar” o impacto colocando a figura inacreditável de Alexandre Frota na história ou partiu para a belicosidade adjetivada, como fez a Folha numa matéria de página inteira.

Jornal cuja reação foi a mais extremada na imprensa corporativa: não apenas pelo texto adjetivado, a começar pela própria manchete (cadê o Manual de Redação da Folha?), mas também pela sucessão de falácias lógicas – aquelas descritas por Aristóteles.

Autoatentado e extraterrestres

Além da falácia do ataque à pessoa – o texto apenas relata apenas as reações favoráveis de políticos petistas, num evidente desequilíbrio, ao invés de reportar reações de todo o espectro político – apela para a falácia da ignorância (a facada foi verdadeira por não ter sido provada que é falsa) e para a falácia da falsa analogia. Uma falsa analogia entre a tese do autoatentado com a da suposta existência de uma conspiração de seres extraterrestres:

De fato, a PF nunca teve como objeto formal da investigação a hipótese do autoatentado, assim como não teve a de que a facada foi planejada por alienígenas, por exemplo, pelo simples fato de não haver qualquer indício plausível nesse sentido.

Falsa analogia entre ETs e autoatentado para forçar a dedução de uma suposta inverossimilhança da investigação de Joaquim de Carvalho.

 

Porém, a Folha deixa de lado a realidade factual: um episódio que envolveu o candidato militar, ponta de lança de um movimento de ocupação da máquina do Estado pelas Forças Armadas – como ficou comprovado após a vitória do capitão da reserva.

Por isso, não passa pela cabeça dos infants jornalistas da Folha de que as chamadas “operações de bandeira falsa” (conceito militar de utilização das “bandeiras” do inimigo para realizar operações que aparentem serem realizadas pelo próprio inimigo, tirando partido das consequências resultantes) estão presentes em qualquer manual de estratégia militar – o malogrado atentado do Riocentro em 1981 foi um exemplo de como esse tipo de operação faz parte do repertório da caserna nacional.

Ou ainda o mesmo modus operandi com a live de Bolsonaro sendo auto derrubada, uma verdadeira mini false flag – principalmente quando sabemos que seria tecnicamente impossível para as empresas Facebook e YouTube (Google) derrubarem simultaneamente as duas plataformas. Além do que, os vídeos seguem publicados, ao contrário do que aconteceria se os vídeos fossem mesmo derrubados por restrições das políticas das empresas – clique aqui.

Enquanto isso, até onde se sabe, alienígenas a bordo de seus OVNIs não estão operando estratégias de ocupação militar nesse planeta.

Ingenuidade ou má-fé por parte da Folha em usar um tipo de falácia tão primária?

Então, porque veículos do jornalismo corporativo parecem tão incomodados, acusando o golpe da viralização nas redes dos resultados do trabalho investigativo do jornalista Joaquim de Carvalho?

Sabemos que a grande mídia continua sua estratégia de “morde-assopra” com o governo Bolsonaro, já que desde que assumiu o papel de partido de oposição no jornalismo de guerra dentro do consórcio militar-judiciário (cabeça de ponte da guerra híbrida brasileira) que culminou no golpe de 2016, simula ser oposição a Bolsonaro.

Por exemplo, hoje comemora o centenário do grande educador e filósofo Paulo Freire para fazer de conta que se opõe à guerra cultural do chefe do Executivo – como se, por toda a vida do educador, a grande mídia não o tivesse olimpicamente ignorado por ser um nome ligado aos movimentos progressistas.

Agora a grande mídia o celebra, mas do seu jeito: “Pedagogia do Oprimido” está quase se transformado numa obra de empreendedorismo educacional, segundo os textos que os apresentadores dos telejornais leem nos teleprompters.

 

A saga dos cães perdidos

Mas há algo mais nesse incomodo dos veículos de imprensa corporativa. Parece haver um misto de inveja e, ao mesmo tempo, pânico diante do resultado de um didático exemplo da metodologia do verdadeiro jornalismo investigativo.

Jornalismo investigativo requer mais do que investigação minuciosa dos fatos, procurando conectar fatos e denunciar fios soltos deixados pelas investigações oficiais – Justiça, Polícia etc. Requer tempo, recursos financeiros, paciência e, por que não, sorte.

Uma investigação feita unicamente pelo jornalista, sem informações cujas fontes tenham sido de autoridades como policiais ou judiciárias – fontes cuja “resposta” da Folha o tempo inteiro procura se apoiar para desautorizar o documentário.

Há uma questão mais profunda: o jornalismo corporativo entra em pânico ao ver em ação um tipo de jornalismo que as suas redações esqueceram de praticar há tempos.

A resposta à pergunta que encabeça essa postagem pode ser buscada no livro do pesquisador Ciro Marcondes Filho, “A Saga dos Cães Perdidos” – a metáfora do Jornalismo que perdeu o faro e se perdeu.

 

Marcondes Filho apontava que as rápidas transformações tecnológicas estavam dividindo o campo jornalístico em duas categorias de profissionais: aqueles que trabalham sentados (limitando-se ao tratamento de releases de agências e assessorias de comunicação) e os que trabalham em pé – a minoria que vai a campo investigar.

A hegemonia dos jornalistas sentados (que transforma o ambiente das redações em espaços corporativos análogo a empresas), torna os profissionais em terminais de releases que serão apenas editados (antigamente, falava-se que isso era “gillette press”). Atividade tautológica: checar a mera conexão entre as palavras e as coisas, perdendo de vista conjunturas, contextos, cenários, causalidades e, principalmente, a essência do questionamento investigativo: quem ganha com essa informação que está chegando pelo meu celular, através da tela do computador ou por aquela voz ao telefone?

Nesse ambiente corporativo de jornalistas que trabalham unicamente sentados, é natural que “investigação” se confunda com “apuração” e “checagem”. Por exemplo, se o marqueteiro Elsinho Mouco “vaza” para a imprensa (na verdade “planta” dentro da estratégia geral de “agrojornalismo”) o vídeo do jantar de Temer ridicularizando Bolsonaro, o único trabalho investigativo do jornalista é “apurar” a informação: o vídeo é verdade ou fake? Sem fazer uma simples indagação do velho faro jornalístico em extinção: quem ganha quando vazam essas informações para mim? Qual o interesse pelo “vazamento”?

Para quê esses questionamentos se tudo pode ser “checado” permanecendo sentado? Nesse contexto tecnológico-organizacional, vazamento vira sinônimo de furo: editar vazamentos produzidos pelo Ministério Público, Polícia Federal, marqueteiros e RPs tornou-se sinônimo de “furo” – republicar documentos vazados, sem o jornalista se interessar em ligar pontos ou questionar os interesses por trás das informações.

Por isso, para além do jogo “morde-assopra” combinado dentro da guerra criptografada de informações, há algo que dói fundo na autoestima do jornalismo corporativo ao ver um autêntico trabalho de jornalismo investigativo a partir dos fios deixados (propositalmente?) soltos pelas autoridades.

Joaquim de Carvalho trabalha em pé: se aventura por vielas atrás de personagens que se recusam a dar informações, caminha pela cena dos acontecimentos entrevistando testemunhas, muitas delas desconfiadas e resistentes em conversar com o jornalista. De repente, o que é jornalismo parece até virar até trabalho etnográfico de campo.

Dói fundo na auto-estima pelo pânico provocado pelo documentário: deixa nu um tipo de jornalismo hegemônico que tornou-se convenientemente preguiçoso para deixar toda uma geração de jornalistas sem faro e perdida.

Matéria originalmente publica em  terça-feira, setembro 21, 2021 no site cinegnose