Política

Torcidas antifascistas ocupam vácuo dos partidos políticos nas ruas

Há um fenômeno novo no cenário político que é o surgimento das torcidas de de times de futebol na liderança da luta contra Bolsonaro nas ruas. Segundo o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, elas ocupam o espaço deixado pelos partidos e pelas organizações tradicionais de esquerda. Ele prevê ações de grande violência das PMs contra as torcidas

247 – As torcidas de times de futebol estão assumindo a liderança da luta contra o governo Bolsonaro nas ruas, “ocupando o vácuo” deixado pelos partidos e organizações tradicionais de esquerda.

É o que aponta  o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, professor da FGV e pesquisador das torcidas organizadas. A presença de torcedores na linha de frente de atos contra o Bolsonaro e em confronto com bolsonaristas e as PMs no fim de semana foram o fato político novo na conjuntura.

As torcidas antifascistas nasceram em parte como reação a grupos tradicionais nos próprios clubes, diz Buarque de Hollanda em entrevista a Bernardo Mello de O Globo, mas não são oposição a elas.

Há um traço de união entre todos os grupos que é a confrontação com as PMs, hoje uma base de sustentação do bolsonarismo, o que aponta para um possível agravamento da violência na ruas: “Temos visto as PMs estaduais serem aliciadas pelo bolsonarismo. Há um histórico de repressão policial a protestos associados à esquerda, e a manifestação de domingo no Palácio Guanabara é evidência disso. Por outro lado, há uma predisposição também no tratamento às organizadas.

A ação da PM em Copacabana no domingo é o modus operandi em caravanas de torcidas em outro ambiente. Acho que se juntaram-se as duas coisas, é quase um coquetel explosivo. A tendência de intensificação do confronto é bem grande”.

Para o pesquisador, a presença das torcidas de futebol nos protestos é uma tendência internacional há alguns anos e sua presença nas ruas dificulta o discurso anticomunista dos bolsonaristas: “O fato de serem torcidas desarmou um pouco a retórica dos bolsonaristas. Como não eram simplesmente ‘os vermelhos’, tiveram que sair do argumento político para o moral, de que as organizadas são ‘violentas’, ‘promovem o caos’, o velho estigma.

Há um contexto histórico internacional que passa pela Primavera Árabe, que teve participação de ultras do Egito, e chega até o contexto latino-americano, com a contestação ao governo chileno de Sebastian Piñera com participação de barras com histórico de rivalidade, como das do Colo-Colo e da Universidad de Chile. É algo importante para entender como aparece esta participação, neste momento, de torcidas ligadas ao Corinthians e até a rivais como Internacional e Grêmio. Há movimentos de esquerda que não vêm conseguindo ocupar este vácuo”.

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