Geral

Vaza, seu Hélio, que lá vem o Brasil, pau de arara desgovernado

GUI PRÍMOLA/METRÓPOLES

Estamos dentro de um projeto de país sem freio, descendo uma ladeira

Seu Hélio, do gás.

Morreu.

Cantaram “Mais Perto Quero Estar”, um hino protestante antigo.

Ela olha, olha pra ladeira, calada. E vai pra casa com a irmã, Dorotéia.
Seu Hélio não tinha aposentadoria, não tinha dinheiro guardado, nada.
Largou o emprego já fazia 20 anos e montou um pequeno depósito de gás. E foi nisso que viveu o resto da vida, dava pra pagar as poucas contas que tinham e os remédios.

Ela fecha a mensagem.
Ainda com o celular na mão, respira e vai nos fundos da casa. Pega uma garrafa de querosene e vai pra cozinha.

Num prato, coloca o celular e derrama o querosene em cima.
Risca um fósforo, a porra pega fogo. Ela vê as chamas subirem.
Nesse momento, eu e você já estamos do lado de fora da casa, indo embora.
Vendo, cada vez mais distantes, as chamas saindo pelas janelas. E a esposa de Seu Hélio não sai de lá. Já estamos no alto, entre as nuvens, nessa noite na Baixada, e lá embaixo, um pontinho amarelo, a casa pegando fogo, alguns vizinhos vindo pra rua.

Eu tinha que escrever uma coluna por dia.
Mas a verdade é que tem tanta coisa acontecendo que talvez duas colunas por dia ou três fosse melhor.

Manhã, tarde e noite.
Quem sabe uma rabiola na madrugada. Só pra confirmar que ainda estamos vivos.

Eu vou descrever, de frente pra trás, a dificuldade de escrever apenas uma coluna, no primeiro dia útil depois do Carnaval 2020,

aliás,
Feliz Ano Novo,
e veja:

Sergio Moro, o Marreco da Justiça, DESFILOU NUM TANQUE DE GUERRA, agora há pouco.

Bolsonaro nega que os vídeos que foram compartilhados POR ELE convocando pessoas para manifestações contra o Congresso tenham sido algo “sério”, se muito, “uma conversa entre amigos”, esses amigos brincalhões do presidente, que assassinam vereadoras, ex-milicianos, que fazem discurso com texto de Goebbels.

Ministros do STF, o Fernando Henrique, o Rodrigo Maia, Alcolumbre, Molon, a oposição inteira, PSOL, PCdoB, todo mundo da classe política já se manifestou, ATÉ O FROTA, contra essa tentativa declarada de golpe de Estado.

Até o Frota.

Antes dessa notícia, a de que Sérgio Camargo, além de demitir os funcionários negros da Palmares por telefone, disse que vai “seguir a linha do Secretário Roberto Alvim”, que, pelo visto, AINDA É SECRETÁRIO, talvez de dentro de um führerbunker, já que a Regina Duarte, um mês depois de ser indicada, continua sendo A FUTURA SECRETÁRIA DA CULTURA.

Mas che mérde é essa, boca de cinzero?
A mulher já pintou as caneca, já teve OS PROCLAMAS, já teve ela com aquela boca aberta, cheia de dente, esperando a morte chegar, caralho.

minha primeira coluna neste veículo foi sobre ela, eu já tenho praticamente 10 anos de casa, e ela ainda não assumiu? Serace Alvim AINDA ESTÁ COMANDANDO A PASTA e será esse o motivo do Sérgio Camargo se referir a ele como “O SECRETÁRIO”?

Eu não quero, e poderia, entrar no mérito do Sérgio, que entrou na Palmares para, obviamente, destruir a Palmares, já que nega que a escravidão foi ruim para o povo negro, pelo contrário, foi positiva.

Mas eu nem consigo parar pra pensar nisso, porque ainda lembro que, depois da Patrícia Campos Mello, tem Vera Magalhães sendo humilhada e alvo de atentados misóginos e criminosos pelos bolsonaristas. E eu, sinceramente, não vou meter essa atitude NOJENTA da esquerda que só defende os jornalistas que fazem parte do metiê Lula Livre. Bateram pra caramba na Miriam Leitão, eu era um nada quando defendi, aí bateram em mim. Bateram na Madeleine Lacsko, eu defendi, bateram em mim. E eu sou um nada pra eles.

Agora, essa esquerda se dedica a dizer quem é iluminado e quem não é. Cid Gomes, na boca deles, vale menos que um copo d’água de torneira da CEDAE. Alessandra Negrini e o Cacique de Ramos têm mais é que morrer, e Vera Magalhães tá sofrendo “porque ajudou a situação chegar onde chegou”.

Misericórdia, Jesus amado.

Bota rancor nessa porra, soca rancor, uma camisa do Guevara, temos a esquerda brasileira. Buscam por pessoas santas, caralho, ninguém é santo. Ninguém atende aos critérios das militâncias identitárias, de gênero, até porque dentro das próprias militâncias há pessoas reproduzindo uma cacetada de homofobias, misoginia, racismo. A esquerda meio que virou uma religião. E em termos de religião, evangélico ganha.

Mangueira deitou os cabelo na avenida, fez bonito, a militância veio e disse que Jesus não era preto, nem existiu. Safoda ele. Enquanto isso, os pretos e pretas que levaram uma mensagem para constranger os religiosos oportunistas e fazer com que a sociedade reflita sobre as violências contra terreiros e a sede de poder dos evangélicos, esse pessoal da escola foi simplesmente desprezado pelas militâncias.

Que merda é essa, querido? O certo seria cuspir nas evidências históricas e antropológicas que provam que Jesus era, além de negro, um religioso defensor de pautas de oprimidos, e ficar calado, esperando pela próxima violação de terreiro?

Corona vírus veio no corpo de um branco, rico, não num chinês da 25 de Março. Ele foi se consultar onde? Albert Einstein. Eu duvido que até no Metrópoles tenha jornalista que se trate lá, ainda mais jornalista, que tá mais pra fila de UPA. O cara paga uma consulta do Einstein com um título da dívida pública, nem é dinheiro que eles aceitam não. É ações em empresa. Tu faz um exame, eles te cobram 30% das ações da tua empresa, e teu rim esquerdo.

Pois esse sujeito teve o tratamento premium pro Corona. Sem essa de OMS permite. É Brasil. Se fosse um preto de Paraisópolis, os médico já tinha chamado a ROTA pra matar ele dentro da enfermaria e pimba: quarentena com paciente curado.

A sorte do brasileiro é que PM mata mais que Corona. E depois que beijou a boca de 700 pessoas, mijou em poça de esgoto, pegou em corrimão de escada de trem suja de porra, lambeu o cu de uns 40, dividiu o pastel com cachorro, amanheceu todo cagado num sofá com a comissão de frente do Bloco das Piranha em Madureira, e foi trabalhar hoje, você não morre de Corona Vírus. Ele que morre, se te pegar. A cura pro Corona pode ser um brasileiro. A gente manda um brasileiro sobrevivente do Carnaval pra China, ele mija na boca de alguém cantando Psirico, estanca o vírus, e a pessoa ainda sai rebolando da emergência.

A gente nem se resolveu das merdas que aconteceram semana passada, já temos o país à beira de uma guerra.

Não é que o governo Bolsonaro tá sem freio.
Esse veículo já foi projetado só com acelerador.
O Brasil é como um caminhão de pau de arara, lotado de gente, descendo a ladeira a 120 por hora, caindo as mala, as bolsa, as criança de menor pra fora do caminhão, e o motorista GARGALHANDO, conduzindo todo mundo pro paredão no fim da rua, onde funciona um depósito de botijão de gás.

Onde trabalha o Seu Hélio.
E é aí que entra a história de Seu Hélio.

Seu Hélio, cabôco pacífico.
Diácono da igreja, muito sossegado.
Senta todas as tardes, na calçada em frente ao seu depósito de botijão e água mineral, e fica ali, contemplando o movimento ciclístico-amador e a pecuária. Whatever.

Numa tarde, Seu Hélio tirava com um palito a sujeira debaixo da unha do pé, quando vê, lá no alto da ladeira, um caminhão.

Dentro da boleia, um sujeito com a boca aberta. Gargalhava. Ao seu lado, um pessoal esquisito, e um ministro da Economia dizendo que empregada doméstica não pode comer na cozinha.

Na caçamba, um país.
Onde ninguém mais se entende.

Seu Hélio não sabia, mas aquele caminhão que vinha em sua direção não tinha freio. Ele foi feito apenas pra acelerar.

Seu Hélio vê o bicho se aproximar, fica em pé, se mija. Em segundos, vem caminhão, motorista gargalhando, caçamba, entra no depósito, explode a porra toda, morre todo mundo.

E por isso, a esposa do Seu Hélio decidiu se tacar fogo. Foi mais honesta que muito eleitor do atual presidente. Porque ela acreditou nas mensagens de WhatsApp, votou no homem, que matou seu marido, que faliu um país. Triste fim pra ela. Pra todos.

Nisso Dilma tava certa. “No fim, ninguém vai vencer.”

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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