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O Hezbollah é capaz de desafiar Israel

Sayyed Hassan Nasrallah (Foto: AL-MANAR TV/Handout via REUTERS)

José Reinaldo

Neste artigo o autor explica o discurso proferido pelo secretário-geral do Hezbollah, Hasan Nasrallah, em 3 de novembro

 

Por Xavier Villar (*) no HispanTV – Em primeiro lugar, é importante destacar que a interpretação que a maioria dos especialistas ocidentais tem dado às palavras de Nasrallah não coincide com uma interpretação precisa das mesmas. Esta falta de compreensão deve-se à falta de conhecimento das características discursivas específicas do Hezbollah e do Eixo da Resistência em geral. Por outras palavras, o discurso de Hassan Nasrallah foi desenvolvido nos seus próprios termos, sem ser influenciado pelo quadro político ocidental.

Num sentido mais amplo, esta é uma das características distintivas do Eixo da Resistência: a sua autonomia discursiva, que decorre da perspectiva de que o Ocidente já não ocupa o lugar central como norma predominante, uma vez que, segundo esta perspectiva, a sua hegemonia não é total. Portanto, é impossível compreender as palavras de Nasrallah sem levar em conta este aspecto.

Por outro lado, a falta de compreensão faz com que a maioria destes especialistas ignore a situação atual no Líbano e ao longo da fronteira norte da Palestina ocupada, onde o Hezbollah já luta contra a ocupação sionista. De acordo com números fornecidos pelo grupo libanês, eles destruíram pelo menos 9 tanques sionistas, deslocaram mais de 65 mil colonos sionistas, mataram 120 soldados sionistas e tiveram, até à data, 59 baixas próprias. Além disso, é importante lembrar que, de uma perspectiva estratégica, as ações do Hezbollah estão impedindo a capacidade do exército sionista de se concentrar a 100% em Gaza.

Portanto, não faz sentido interpretar as palavras de Nasrallah como uma “confirmação da desescalada”. O próprio discurso deixou claro o contrário. Nasrallah não só ameaçou a entidade sionista com uma resposta mais forte se esta continuasse com o seu genocídio em Gaza, mas também colocou o foco nos Estados Unidos, que ele considera diretamente responsável pela situação. Isto, como salienta o professor e especialista do Hezbollah Amal Saad, é muito relevante. Por um lado, sublinha a vontade do Hezbollah de atacar os Estados Unidos se estes continuarem a recusar um cessar-fogo em Gaza. Por outro lado, reconhece-se a falta de soberania e autonomia da entidade sionista, que o Secretário-Geral do Hezbollah definiu como “uma ferramenta executiva dos Estados Unidos”.

A análise de Nasrallah, do ponto de vista político, é de grande importância para a avaliação da situação. Se considerarmos a categoria de “poder” como a capacidade de agir autonomamente, fica claro que Israel não pode ser considerado uma potência nesse sentido, uma vez que a sua capacidade de agir depende em grande parte da presença externa dos Estados Unidos.

Tudo isto sublinha mais uma vez a necessidade de compreender o discurso de Nasrallah nos seus próprios termos político-ideológicos. É o grupo que estabelece os seus próprios prazos, um ponto que a maioria dos analistas no Ocidente parece esquecer. Neste contexto, é importante lembrar que na vitória contra o exército sionista em 2006, o Hezbollah apenas destacou algumas centenas dos seus membros em combate direto, o que sublinha a importância de compreender a estratégia político-militar do Hezbollah a partir da sua própria perspectiva. Em 2006, segundo estimativas de fontes americanas e sionistas, o grupo contava com cerca de 5 mil membros. Hoje, segundo essas mesmas fontes, o Hezbollah tem mais de 100.000 membros e um arsenal muito mais moderno, capaz de desafiar significativamente Israel.

Do ponto de vista político-discursivo, nota-se que aqueles especialistas que esperavam uma declaração de guerra do Hezbollah entendem a resistência a partir da perspectiva limitada do binarismo: guerra-paz. Este binário, que responde a um discurso estranho ao próprio grupo, não tem em conta, como já foi referido, que o Hezbollah já participa diretamente no conflito contra a ocupação sionista. O nível de participação do grupo é algo que só o grupo pode decidir. Fingir o contrário implica aplicar um quadro político-discursivo estranho ao grupo que em nada beneficia o Eixo da Resistência como um todo.

Esta imposição discursiva também se reflete na definição do Hezbollah como um “procurador iraniano”. A doutrina do patrocinador-procurador reduz as múltiplas relações entre o Irã e o Hezbollah a uma mera questão de troca material, onde Teerã, como Estado, usa o seu poder para controlar o grupo subordinado. Além de ser uma visão excessivamente simplista, esta perspectiva baseia-se em fundamentos epistêmicos que incluem a categoria de “proxy” juntamente com outras categorias como “terrorista” e “extremista”, dentro de uma cadeia de equivalência. É uma categoria prescritiva que tenta estigmatizar os movimentos que desafiam o projeto hegemônico ocidental na região, especialmente aqueles movimentos, como o Irã e o Hezbollah, que articulam a sua resistência ao projeto ocidental numa linguagem não secular. A categoria de “proxy” é, portanto, mais um recurso utilizado pelo Ocidente (entendido como uma ideologia e não simplesmente uma geografia) para dividir a região em termos de amigos e inimigos, ou seja, uma divisão política da região que considera o Irã e o Hezbollah como riscos estratégicos para os seus interesses.

O Hezbollah é um ator autônomo, tanto política como discursivamente. É precisamente esta autonomia que torna necessário interpretar o Hezbollah (e os outros membros do Eixo da Resistência) na sua própria linguagem e não através da linguagem política ocidental. Interpretar o Eixo da Resistência a partir de um quadro estranho apenas serve para perpetuar a criminalização de qualquer tentativa de desmantelar a epistemologia ocidental na região.

(*) Xavier Villar é PHD em Estudos Islâmicos

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